domingo, 4 de julho de 2010

PROVEITOSA CONQUISTA.

Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa; – porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado.” 1

O capítulo VII, de O Evangelho segundo o Espiritismo, itens 3 a 6, destaca o princípio de humildade como fator determinante para a ascensão espiritual de todas as criaturas e fundamenta-se, entre outras, na passagem evangélica em destaque. A análise oferecida por Allan Kardec, no texto em questão, enaltece a ideia fundamental de que necessitamos nos despojar de certas vaidades, chamando atenção, sobretudo, para o cuidado que devemos ter ao assumir situações de relevo social, profissional, ou religioso, frente ao mundo material:

O Espiritismo aponta-nos outra aplicação do mesmo princípio nas encarnações sucessivas, mediante as quais os que, numa existência, ocuparam as mais elevadas posições, descem, em existência seguinte, às mais ínfimas condições, desde que os tenham dominado o orgulho e a ambição. Não procureis, pois, na Terra, os primeiros lugares, nem vos colocar acima dos outros, se não quiserdes ser obrigados a descer. [...]

A valiosa ressalva permite-nos avaliar, essencialmente, as práticas espíritas que desenvolvemos, ao alimentar a superioridade ou a infalibilidade na execução dos trabalhos voluntários, considerando-os extremamente importantes ou prestigiosos. A questão suscita outras indagações indispensáveis à nossa reflexão: Contribuímos sem impor exigências? Abraçamos os deveres humildes com devoção e atendemo-los com amor? Acreditamos cooperar melhor quando nos tornarmos coordenadores de equipes, em tarefas específicas e essenciais? Damos maior valor às próprias ideias do que às orientações estabelecidas pela instituição, para o bom êxito dos labores? Essas perguntas ajudarão na análise do problema.

O Centro Espírita oferece-nos inúmeras oportunidades na realização de tarefas nobres e permite-nos, pelo serviço no Bem, curar as mazelas morais adquiridas no pretérito de nossas existências. As múltiplas ações que abarcamos – no estudo edificante, na mediunidade, na evangelização, na assistência social, no atendimento fraterno, na imprensa espírita, na propaganda libertadora – nos faz viver tempos de renovação e servir motivados pela Doutrina que nos convoca às fileiras da caridade, sem olvidarmos os necessitados do caminho. Cada qual servindo a seu modo. Nem sempre, contudo, estamos preparados para dar a verdadeira importância às obras na esfera doutrinária e compreender o que elas representam para melhoria do nosso aperfeiçoamento próprio. A maneira com que agimos, os motivos que determinam o nosso comportamento sincero, ao aceitarmos de boa vontade determinadas tarefas, é o que irá fixar o valor maior ou menor das nossas ações em benefício dos semelhantes. No entender de Vinícius (pseudônimo de Pedro de Camargo, 1878 -1966), “o valor das obras não está nas suas grandes proporções, mas na pureza de intenção com que são executadas e no esforço empregado para sua consecução. [...]”.O autor, considerado um dos maiores educadores e evangelizadores espíritas do nosso tempo, lembra-nos: “[...] A viúva pobre fez mais deitando no gazofilácio do templo uma moedinha de cobre do que os ricos que ali despejavam punhados de ouro. O óbolo da viúva representa um valor maior, porque é a expressão do sumo esforço; era tudo que ela possuía. Dando tudo, não podia dar mais [...]”, 3 como a querer dizer-nos: na seara do amor, onde operamos, não há serviço insignificante, não há tarefas menores; elas são apreciadas por Deus, segundo a sua soberana justiça, pela exteriorização dos nobres sentimentos que encobrimos no âmago do nosso coração.

Certos autores espíritas convocam-nos à labuta simples, sem que tenhamos pretensões de executar grandes feitos, antes mesmo de amadurecermos como tarefeiros, por meio da aquisição de experiências e estudos necessários ao cumprimento de ações que exijam especial dedicação, fidelidade e expressiva responsabilidade. Yvonne A. Pereira (1906-1984), a inesquecível médium, em uma de suas obras, lastima profundamente a incompreensão de alguns iniciantes no Espiritismo, sobretudo os que aspiram trabalhar na utilização de suas faculdades psíquicas, conforme suas possibilidades individuais, a serem bem cultivadas e praticadas, aconselhando-os:

[...] Todo médium deverá iniciar o seu desempenho no campo da Doutrina Espírita pelas vias da beneficência, porque assim fazendo desenvolverá os seus poderes psíquicos envolvido nas faixas vibratórias superiores, junto aos Guias Espirituais, sempre incansáveis em recomendar a prática da beneficência e o estudo constante e metódico, desestimulando a ação arbitrária, de começar pelo fim [...].

A autora esclarece que o profitente, ao principiar na tarefa maior, deve compreender que o trabalho da caridade

[...] é o serviço do silêncio, da modéstia; não vai para os jornais, nem para as tribunas ou rádios. Não serve para exaltar a vaidade, nem o orgulho, nem o prazer de se sentir admirado. É o trabalho da mão direita, que a esquerda não vê... Mas pelo Mestre e seus mensageiros é conhecido e saudado...

Colaborar, anonimamente, em qualquer auxílio de assistência aos irmãos necessitados, fazendo o bem sem ostentação, é uma recomendação indispensável! Trabalhadores existem, aos milhares, colaborando, ativamente, nas instituições espíritas; todavia, raríssimos buscam enriquecer os seus talentos no plantio da verdadeira caridade. Mesmo os mais experientes deixam-se dominar pelo cultivo excessivo do raciocínio, esquecendo-se dos generosos sentimentos no coração, que deve nortear a autêntica prática do Espiritismo junto de Jesus. O livro espírita Os Mensageiros, do Espírito André Luiz, psicografado por Francisco C. Xavier, relata o caso de Monteiro, servidor entusiasta da colônia “Nosso Lar”, preparado para ser colaborador na iluminação de companheiros encarnados e desencarnados. Ao reencarnar, no entanto, aprimorou-se na aplicação do vício intelectual, desorientando-se completamente. Em seu desabafo, comenta alguns aspectos sobre as causas de sua derrota como trabalhador espírita, dirigindo-se aos companheiros que o visitaram, após a desencarnação difícil que tivera:

[...] Chegava ao cúmulo de estudar, pacientemente, longos trechos das Escrituras, não para meditá-los com o entendimento, mas por mastigá-los a meu bel-prazer, bolçando-os depois aos Espíritos perturbados, em plena sessão, com a ideia criminosa de falsa superioridade espiritual. [...]

Andava cego. [...] Talhava o Espiritismo a meu modo. Toda a proteção e garantia para mim, e valiosos conselhos ao próximo. Ao demais disso, não conseguia retirar a mente dos espetáculos exteriores. [...]

Quando, pois, nos seja oferecido o ensejo de ajudar na seara espírita, saibamos agir com simplicidade e humildade, sob os efeitos da legítima fraternidade cristã, sem esperar recompensas, de nenhuma ordem, mas procurando enriquecer os dotes de eficiência imprescindível, apurados nos predicados de bondade, modéstia, perseverança e espírito de sacrifício, para o engrandecimento das realizações que nos aguardam, sob o amparo dos mentores espirituais que nos assistem com conselhos e orientações legítimas. E, conforme adverte o Espírito Emmanuel, estejamos vigilantes para não deixar que “[...] se amorteça, entre os discípulos sinceros, a campanha contra o elogio pessoal, veneno das obras mais santas a sufocar-lhes propósitos e esperanças”. 8 Assim procedendo, haveremos de obter proveitosa conquista, multiplicando as partículas de amor que tivermos distribuído em bênçãos de luz para todos.

Clara Lila Gonzales de Araújo
Reformador Julho2010

Referências:
1 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 25. ed. de bolso. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 7, item 5.


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