terça-feira, 24 de abril de 2012

ESPIRITEIROS


A possibilidade de se melhorarem noutra existência não será de molde afazer que certas pessoas perseverem no mau caminho, dominadas pela idéia de que poderão corrigir-se mais tarde?

Aquele que assim pensa em nada crê e a idéia de um castigo eterno não o refrearia mais do que qualquer outra, porque sua razão a repele, e semelhante idéia induz à incredulidade a respeito de tudo. Se unicamente meios racionais se tivessem empregado para guiar os homens, não haveria tantos cépticos. De fato, um Espírito imperfeito poderá, durante a vida corporal, pensar como dizes; mas, liberto que se veja da matéria, pensará de outro modo, pois logo verificará que fez cálculo errado e, então, sentimento oposto a esse trará ele para sua nova existência. É assim que se efetua o progresso e essa a razão porque, na Terra, os homens são desigualmente adiantados (....) Questão 195

Não encontraremos no dicionário a expressão ”espiriteiro”.

Podemos situá-la como um neologismo (palavra nova) para definir pessoas que se ligam ao Centro Espírita desligadas das finalidades do Espiritismo.

Espiriteiro é o ”papa-passes”, que comparece às reuniões apenas para receber sua ”hóstia” depuradora, representada pela transfusão magnética.

Freqüentador assíduo de ”consultórios do Além”, grupos mediúnicos que se formam apenas para receber favores espirituais, não consegue compreender que o Espiritismo não é mero salva-vidas para acidentes existenciais nascidos de sua própria invigilância.

Refratário a qualquer compromisso que imponha disciplinas de horário e assiduidade, alega absoluta falta de tempo, sem atentar a um princípio elementar: tempo é uma questão de preferência.

Kardec fala dos espiriteiros, em ”O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo XVII: Nalguns, ainda muito tenazes são os laços da matéria para permitirem que o Espírito se desprenda das coisas da Terra; a névoa que os envolve tira-lhes a visão do infinito, donde resulta não romperem facilmente com os seus pendores, nem com seus hábitos, não percebendo haja qualquer coisa melhor do que aquilo de que são dotados.

Têm a crença nos Espíritos como um simples fato, mas que nada ou bem pouco lhes modifica as tendências instintivas. Numa palavra: não divisam mais do que um raio de luz, insuficiente- para guiá-los e a lhes facultar uma vigorosa aspiração, capaz de lhes sobrepujar as inclinações.

Atêm-se mais aos fenômenos do que à moral, que se lhes afigura cediça e monótona.

Pedem aos Espíritos que incessantemente os iniciem em novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignos de penetrar os arcanos do Criador.

Esses são os espíritas imperfeitos, alguns dos quais ficam a meio caminho ou se afastam de seus irmãos em crença, porque recuam ante a obrigação de se reformarem, ou então guardam as suas simpatias para os que lhes compartilham das fraquezas e das prevenções.

Tive um amigo espiriteiro, um ”bon vivant”, dado a aventuras extraconjugais e viciações. Embalado pelo comodismo, surdo e cego aos princípios espíritas que dizia esposar, justificava sua posição:

- Temos milênios pela frente, nos domínios da eternidade. Retornaremos incontáveis vezes ao educandário terrestre. Por isso não há pressa. O que não fizer hoje, faço amanhã. Além do mais, ninguém é de ferro. Disciplina demais é tirania do cérebro sobre o coração. Como ensinava Jesus, ”o Espírito é forte, mas a carne é fraca”. Homem que sou, não posso furtar-me às contingências do mundo. Incrível! Uma observação tão séria de Jesus, em circunstância dramática, é vulgarizada, com inversão de seu significado para justificar os desatinos de um espiriteiro!

Textualmente, segundo Marcos (14:38), diz Jesus: Vigiai e orai para que não entreis em tentação.

O Espírito, na verdade., está pronto, mas a carne é fraca.

O Mestre fez esta advertência no Horto, antes de ser entregue soldados romanos. Em plena madrugada recomendava aos discípulos que o ajudassem na vigília, buscando, em oração, a proteção divina para os testemunhos que viriam.

Embora a fraqueza da carne representasse naquele momento o sono que insistia em apossar-se dos discípulos, ficou o simbolismo vigoroso quanto à necessidade de vigiarmos nossos pensamentos, a fim de não nos deixarmos dominar por impulsos incompatíveis com os princípios religiosos que esposamos.

O grande recurso, nesse propósito, é a oração, evocando as forças do Céu, no empenho por mantermos nossa integridade moral.

O reconhecimento, pois, de que ”a carne é fraca”, deve ser, à luz dos ensinamentos evangélicos, uma advertência; jamais uma justificativa para deslizes de comportamento.

A intenção de transferir para um futuro remoto nossas realizações espirituais, como pretendia nosso amigo espiriteiro, é algo um tanto irracional, porquanto o contato com a verdade implica em compromisso com ela.

É até compreensível que alguém se recuse a levar a sério a idéia de que há penas e castigos eternos para os que não se ajustam a determinados princípios religiosos. Quando aprendemos a raciocinar escasseia espaço em nosso cérebro para a fantasia.

O mesmo não ocorre com a idéia da reencarnação, que se exprime na lógica, dando-nos conhecimento dos porquês da existência humana, onde somos convocados ao desenvolvimento de nossas potencialidades criadoras, superando mazelas e imperfeições.

Sobretudo, ficamos sabendo que a Dor, a grande mestra, tende a acentuar sua energia na proporção em que, tomando conhecimento do que nos compete, deixamos de fazê-lo.

***

Abeberando-nos do conhecimento espírita, não haverá justificativa para a omissão. Partindo da afirmativa evangélica de que muito será pedido ao que muito recebe, concluímos que nós, espíritas, estaremos sempre em débito com a Doutrina, porquanto o empenho de uma vida será pouco, ante a gloriosa visão de realidade espiritual que ela desdobra aos nossos olhos.

Companheiros que se manifestam nos Centros Espíritas a que estiveram vinculados, reportam-se a esse problema.

Não tiveram dificuldade em reconhecer sua nova condição, bafejados pelo conhecimento doutrinário.

Habilitam-se à proteção de benfeitores amorosos, ligados que estiveram a atividades no campo da fraternidade humana.

Reportam-se a indescritíveis emoções, no reencontro com familiares queridos.

Mas, com freqüência, revelam indefinível tristeza, por não terem aproveitado integralmente as oportunidades recebidas.

Guardam a nostalgia do ideal espírita não realizado. Embora as conquistas alcançadas como espíritas, não conseguem furtar-se à penosa impressão de que estiveram mais para espiriteiros...



Richard Simonetti

Livro: Quem tem medo de Espíritos

sexta-feira, 20 de abril de 2012

TIRADENTES


 Mensagem recebida em 21 de abril de 1937,

  Dos infelizes protagonistas da Inconfidência Mineira, no dia 21 de abril de todos os anos, aqueles que podem excursionar pela Terra volvem às ruínas de Ouro Preto, a fim' de se reunirem entre as velhas paredes da casa humilde do sítio da Cachoeira, trazendo a sua homenagem de amor à personalidade do Tiradentes.

Nessas assembléias espirituais, que os encarnados poderiam considerar como reuniões de sombras, os preitos de amor são mais expressivos e mais sinceros, livres de todos os enganos da História e das hipocrisias convencionais.

Ainda agora, compareci a essa festividade de corações, integrando a caravana de alguns brasileiros desencarnados, que para lá se dirigiu associando-se às comemorações do proto mártir da emancipação do País.

Nunca tive muito contato com as coisas de Minas Gerais, mas a antiga Vila Rica, atualmente elevada à condição de Monumento Nacional, pelas suas relíquias prestigiosas, sempre me impressionou pela sua beleza sugestiva e legendária. Nas suas ruas tortuosas, percebe-se a mesma fisionomia do Brasil dos Vice-Reis. Uma coroa de lendas suaves paira sobre. as suas ladeiras e sobre os seus edifícios seculares, embriagando o espírito do forasteiro com melodias longínquas e perfumes distantes. Na terra empedrada, ainda existem sinais de passos dos antigos conquistadores do ouro dos seus rios e das suas minas e, nas suas igrejas, ainda se ouvem soluços de escravos, misturados com gritos de sonhos mortos, do seu valoroso heroísmo. A velha Vila Rica, com a névoa fria dos seus horizontes, parece viver agora com as suas saudades de cada dia e com as suas recordações de cada noite.

Sem me alongar nos lances descritivos, acerca dos seus tesouros do passado, objeto da observação de jornalistas e escritores de todos os tempos, devo dizer que, na noite de hoje, a casa antiga dos Inconfidentes tem estado cheia das sombras dos mortos. Aí fui encontrar, não segundo o corpo, mas segundo o espírito, as personalidades de Domingos Vidal Barbosa, Freire de Andrada, Mariano Leal, José Joaquim da Maia, Cláudio Manuel, Inácio Alvarenga, Dorotéia de Seixas, Beatriz Francisca Brandão, Toledo Pisa, Luís de Vasconcelos e muitos outros nomes, que participaram dos acontecimentos relativos à malograda conspiração. Mas, de todas as figuras veneráveis ao alcance dos meus olhos, a que me sugeria as grandes afirmações da pátria era, sem dúvida, a do antigo alferes Joaquim José da Silva Xavier, pela sua nobre e serena beleza. Do seu olhar claro e doce, irradiava-se toda uma onda de estranhas revelações, e não foi sem timidez que me acerquei da sua personalidade, provocando a sua palavra.

Falando-lhe a respeito do movimento de emancipação política, do qual havia sido o herói extraordinário, declinei minha qualidade de seu ex-compatriota, filho do Maranhão, que também combatera, no passado, contra o domínio dos estrangeiros.

- "Meu amigo - declarou com bondade -, antes de tudo, devo afirmar que não fui um herói e sim um Espírito em prova, servindo simultaneamente à causa da liberdade da minha terra.

Quanto à Inconfidência de Minas, não foi propriamente um movimento nativista, apesar de ter aí ficado como roteiro luminoso para a independência da pátria.. Hoje, posso perceber que o nosso movimento era um projeto por demais elevado para as forças com que podia contar o Brasil daquela época, reconhecendo como o idealismo eliminou em nosso espírito todas as noções da realidade prática; mas, estávamos embriagados pelas idéias generosas que nos chegavam da Europa, através da educação universitária. E, sobretudo, o exemplo dos Estados Americanos do Norte, que afirmaram os princípios imortais do direito do homem, muito antes do verbo inflamado de Mirabeau, era uma luz incendiando a nossa imaginação.

O Congresso de Filadélfia, que reconheceu todas as doutrinas democráticas, em 1776, afigurou-se-nos uma garantia da concretização dos nossos sonhos. Por intermédio de José Joaquim da Maia procuramos sondar o pensamento de Jefferson, em Paris, a nosso respeito; mas, infelizmente, não percebíamos que a luta, como ainda hoje se verifica no mundo, era de princípios. O fenômeno que se operava no terreno político e social era o desprezo do absolutismo e da tradição, para que o racionalismo dirigisse a Vida dos homens. Fomos os títeres de alguns portugueses liberais, que, na colônia, desejavam adaptar-se ao novo período histórico do Planeta, aproveitando-se dos nossos primeiros surtos de nacionalismo. Não possuíamos um índice forte de brasilidade que nos assegurasse a vitória, e a verdade só me foi intuitivamente revelada quando as autoridades do Rio mandaram prender-me na rua dos Latoeiros."

- E nada tendes a dizer sobre a defecção de alguns dos vossos companheiros? - perguntei.

- "Hoje, de modo algum desejaria avivar minhas amargas lembranças. . . Aliás, não foi apenas Silvério quem nos denunciou perante o Visconde de Barbacena; muitos outros fizeram o mesmo, chegando um deles a se disfarçar como um fantasma, dentro das noites de Vila Rica, avisando quanto à resolução do governo da província, antes que ela fosse tomada publicamente, com o fim de salvaguardar as posições sociais de amigos do Visconde, que haviam simpatizado com a nossa causa. Graças a Deus, todavia, até hoje, sinto-me ditoso por ter subido sozinho os vinte degraus do patíbulo." - E sobre esses fatos dolorosos, não tendes alguma impressão nova a nos transmitir?

E os lábios do Herói da Inconfidência, como se receassem dizer toda a verdade, murmuraram estas frases soltas:

- "Sim. . . a Sala do Oratório e o vozerio dos companheiros desesperados com a sentença de morte... a Praça da Lampadosa, minha veneração pelo Crucifixo do Redentor e o remorso do carrasco. . . a procissão da Irmandade da Misericórdia, os cavaleiros, até o derradeiro impulso da corda fatal, arrastando-me para o abismo da Morte..."

E concluiu:

- "Não tenho coisa alguma a acrescentar às descrições históricas, senão minha profunda repugnância pela hipocrisia das convenções sociais de todos os tempos."

- É verdade - acrescentei -, reza a História que, no instante da vossa morte, um religioso, falou. sobre o tema do Eclesiastes - "Não atraiçoes o teu rei, nem mesmo por pensamentos." E terminando a minha observação com uma pergunta, arrisquei:

- Quanto ao Brasil atual, qual a vossa opinião a respeito?

- "Apenas a de que ainda não foi atingido o alvo dos nossos sonhos. A nação ainda não foi realizada para criar-se uma linha histórica, mantenedora da sua perfeita independência. Todavia, a vitalidade de um povo reside na organização da sua economia e a economia do Brasil está muito longe de ser realizada. A ausência de um interesse comum, em "favor do País, dá causa não mais à derrama dos impostos, mas ao derrame das ambições, onde todos querem mandar, sem saberem dirigir a si próprios." Antes que se fizesse silêncio entre nós, tornei ainda:

- Com relação aos ossos dos inconfidentes, vindos agora da África para o antigo teatro da luta, hoje transformado em Panteão Nacional, são de fato autênticos esqueletos dos apóstolos da liberdade? .

- "Nesse particular - respondeu Tiradentes com uma ponta de ironia -; não devo manifestar os meus pensamentos. Os ossos encontrados tanto podem ser de Gonzaga, como podem pertencer, igualmente, ao mais miserável dos negros de Angola. O orgulho humano e as vaidades patrióticas têm também os seus limites... Aliás, o que se faz necessário é a compreensão dos sentimentos que nos moveram a personalidade, impelindo-nos para o sacrifício e para a morte. ..”

Mas, não pôde terminar. Arrebatado numa' aluvião de abraços amigos e carinhosos, retirou-se o grande patriota que o Brasil hoje festeja, glorificando o seu heroísmo e a sua doce humildade.

Aos meus ouvidos emocionados ecoavam as notas derradeiras da música evocativa e dos fragmentos de orações que rodeavam o monumento do Herói, afigurando-se-me que Vila Rica ressurgira, com os seus coches dourados e os seus fidalgos, num dos dias gloriosos do Triunfo Eucarístico; mas, aos poucos, suas luzes se amorteceram no silêncio da noite, e a velha cidade dos conspiradores entrou a dormir, no tapete glorioso de suas recordações, o sono tranqüilo -dos seus sonhos mortos.

Fonte: Extraído do livro Crônicas do além túmulo, Francisco C. Xavier/ Humberto de Campos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

JESUS - CORPO FLUÍDICO

JESUS



Lembrai-vos destas palavras de Jesus, aludindo, antes e depois do sacrifício do Gólgota, à sua missão terrena e a este sacrifício, referentes essas palavras ao corpo que ele revestira e que constituía sua vida aos olhos dos homens: "Deixo a vida para a retomar; ninguém ma tira; sou eu que por mim mesmo a deixo; tenho o poder de a deixar e tenho o poder de a retomar"(João, X, v. 18).

Jesus houvera podido, unicamente por ato exclusivo da sua vontade, atraindo a si os fluidos ambientes necessários, constituir o perispírito ou corpo fluídico tangível que vestiu para surgir no vosso mundo sob o aspecto de uma criancinha. Maria, porém, antes da sua encarnação, pedira, por devotamento e por amor, a graça de participar da obra de Jesus, atraindo, pela emanação de seus fluidos perispiríticos, os fluidos ambientes necessários a constituição daquele perispírito. Dessa maneira se tinha que verificar a sua cooperação, mas de forma para ela inconsciente, porquanto o estado de encarnação humana lhe não permitia lembrar-se. Assim, ao aproximar-se o momento final da sua gravidez aos olhos dos homens, ela, inconscientemente, mas ardendo no desejo de cumprir a missão que o Senhor lhe revelara por intermédio do anjo ou Espírito superior que lhe fora enviado, estabeleceu, pela emanação dos fluidos do seu perispírito, uma irradiação simpática, que atraiu os fluidos necessários à formação do corpo fluídico de Jesus. Nenhum efeito, entretanto, teria produzido a ação inconsciente de Maria, sem a intervenção da vontade daquele que ia descer ao vosso mundo. Jesus, pois, constituiu, ele próprio, pela ação da sua vontade, o perispírito tangível e quase material, que se tornou, tendo-se em vista o planeta em que habitais, um corpo relativamente semelhante ao vosso.

Falando desse invólucro fluídico, a que chamamos, para sermos percebidos pelo vosso entendimento humano, perispírito tangível, dissemos: e quase material. Era quase material, no sentido de que Jesus assimilara, para formá-lo, os fluidos ambientes que servem à formação dos vossos seres.

Não esqueçais que o Espírito assimila seu perispírito às regiões que percorre; que a terra é um dos mundos inferiores e que, por conseguinte, os elementos de tangibilidade podem aí reunir-se tanto mais facilmente, quanto mais poderosa seja a vontade do Espírito.

A ciência humana acha cômodo rir toda vez que é incapaz de compreender. Sim, o perispírito do homem, sobretudo no estado de tangibilidade, é semi-material. A ciência já encontrou porventura meio de comparar o ambiente que vos cerca com os dos outros planetas? Já pôde acaso o sábio descer aos planetas inferiores, para sentir que o ar que os envolve o sufocaria pelo seu peso, lhe toldaria a vista pela sua espessura e se lhe afiguraria um véu estendido por sobre tudo o que em torno dele se encontrasse? Já subiu às regiões superiores, a fim de experimentar a vertigem que lhe causaria a sutileza do ar? Já sentiu seus olhos se dilatarem com o auxílio das camadas de ar superpostas e, varando distâncias para ele incomensuráveis, ir a sua vista perceber objetos em dimensões tais, que os vossos telescópios não lograriam divisar? Qual a razão dessas diferenças? É que as camadas de fluidos são apropriadas às vossas necessidades. Vós o sabeis e dizeis, mas não compreendeis as causas e não procurais compreender os efeitos. O perispírito humano, como perispírito tangível, com relação a vós, é semimaterial, assim como o vapor é semilíquido e a fumaça semi-aérea.

Relativamente à natureza que vos é peculiar, o corpo dos habitantes dos mundos superiores, bem como o perispírito humano do vosso planeta, é um corpo fluídico. Quando vos é dado vê-lo, tem toda a aparência de material.

O corpo perispirítico de Jesus era mais material do que o corpo perispirítico do Espírito superior, nenhuma comparação podendo, entretanto, ser estabelecida a esse respeito. Maior ainda era a diferença entre esse corpo de Jesus e os vossos corpos de lama. Aquele participava em grande escala do corpo do homem nos mundos superiores, por isso que se compunha dos mesmos elementos, mas modificado, solidificado por meio dos fluidos humanos ou animalizados, de modo a manter-se, segundo a vontade do Mestre e as necessidades da sua missão terrena, visível e tangível para os homens, com todas as humanas aparências corporais do vosso planeta.

Que o homem não se insurja contra a possibilidade desses fatos, por não poder ainda compreender e explicar uma composição que se efetua fora das leis materiais da sua natureza.

Não diremos, como os que, por estas palavras: "Tudo é possível a Deus", explicam o que não compreendem. Dizemos ao contrário: o que o homem, na sua ignorância, considera uma derrogação das leis imutáveis não é, sequer, um deslocamento das leis universais; é, sim, uma aplicação delas. Quando ele tenha vencido as dificuldades que o impedem de se elevar no espaço, quando tiver chegado a decompor as camadas de ar superpostas nas alturas que um dia atingirá, quando compreender as propriedades e os efeitos dos fluidos, o uso que deles pode fazer, verá que o que hoje provoca a zombaria da ignorância e da incredulidade se tornará um fato patente, analisado, decomposto pela ciência, que se admirará de que tão poderosos agentes não hajam estado sempre submetidos ao seu império, como se admira de não ter empregado sempre a eletricidade, cujos efeitos visíveis admite, mas cujas causas ainda não determinou. A cada dia basta o seu labor.

 OS QUATRO EVANGELHOS

J.B ROUSTAING

TOMO 1

terça-feira, 17 de abril de 2012

RELIGIÃO É VIDA

"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”.  Jesus (João, 14:6).



Você é convocado para uma nova ideia de Religião.

Não se trata de mera inovação humana. É o retorno ao sentido legítimo de Religião.

Certo é que Você terá visto muita gente fazendo do templo de fé o local da prática religiosa.

Templo, porém, é escola do coração.

Ali se aprende.

A prática dos ensinamentos morais do Cristianismo puro, contudo, pede por palco a própria vida.

Nada de locais restritos e especiais.

É junto de seus familiares, ao lado de seus amigos, no encontro com seus desafetos, que Religião alcança a sua dinâmica de "ligação com Deus".

Jesus viveu religiosamente em toda parte.

Jamais fugiu do mundo.

 Você é chamado para isso: para viver no campo do amor ao próximo, ajudando a construir um mundo novo a partir das fronteiras de seu próprio mundo íntimo.

Evangelho é mensagem de Vida.

A sua presença, no cotidiano, corresponde a um abrir de olhos, a uma visão mais ampla da existência, permitindo que Você se coloque corajosamente diante de Você mesmo.

A Boa Nova é o caminho.

Os Espíritos, rompendo com as barreiras do Além, vêm convocá-la para rasgar os horizontes de novas esperanças.

Eles e Você estão juntos.

O grande desafio, que abala os orgulhosos e confunde os egoístas, é para que Você tenha a coragem de amar, de querer paz, de construir e reconstruir o seu destino.

A serenidade é o salário do Bem.



J.  Alexandre 

Reformador (FEB)  em Jan 1974

quinta-feira, 12 de abril de 2012

SACRAMENTOS ESPÍRITAS?


O Espiritismo, suscitado numa época por excelência caracterizada pela liberdade de pensamento, pelo espírito de crítica e de raciocínio; que, como ciência repousa sobre fatos de observação, milhares de vezes comprovados, como filosofia apoia-se nas mais sólidas induções e deduções que daí decorrem, submetendo todos os ensinos espirituais ao cadinho da lógica inflexível, e como moral, finalmente, vem por termo ao reinado da letra que mata, substituindo-o pelo do espírito que vivifica: o Espiritismo virá a ser um dia uma religião com tudo o que as deforma e esteriliza, isto é, com dogmas, sacerdotes, liturgia, sacramentos, numa palavra, com todo o complicado aparato do culto exterior que, em todos os tempos, deveram as religiões o seu efêmero prestígio, mas também por fim a sua ruína inevitável e fatal?

Seria necessário desconhecer a significação do tempo que vivemos e o papel que o Espiritismo é chamado a desempenhar, como propulsor do progresso humano, incompatível com aquelas embaraçosas engrenagens, para concluir pela afirmativa.

Com efeito, a revelação espírita surge em uma época em que a humanidade, suficientemente esclarecida, acha-se preparada para compreender a inutilidade das fórmulas e do formalismo, e tende a buscar a satisfação de suas latentes aspirações de felicidade e de progresso, não nas práticas, mais ou menos materiais, do culto exterior, mas no desenvolvimento sistemático das forças ocultas da alma, que lhe permitirão uma posse, um conhecimento e, por conseguinte, um gozo espiritual tanto mais intenso quanto maior for o apuro e o desenvolvimento das suas faculdades.

Até aqui, a educação religiosa do homem se tem feito mediante a imposição de um certo número de preceitos, cuja observância – diziam-lhe – asseguraria a salvação. Hoje, pelo Espiritismo, sabemos que o destino é regido por leis sábias, inflexíveis, amorosas e equitativas que “dão a cada um segundo suas obras”, isto é, que exigem de toda criatura, para que efetivamente progrida se adiante e engrandeça espiritualmente, o esforço constante e pessoal, no exercício das virtudes cristãs, por um longo estudo e conhecimento de si mesma, destruindo todas as tendências trazidas do passado, e estimulando as secretas aspirações de Bem e da Verdade, que em todas Deus depositou. Não há assim progresso possível, sem a intervenção da própria atividade consciente, muito embora não cesse a divina Bondade de outorgar-lhe seus favores, suprindo em misericórdia o que em merecimento falta. Mas a inciativa é necessária.

Daí resulta que, estabelecendo-se cada vez mais íntimas e permanentes as relações entre as criaturas e o Criador, por intermédio dos seus mensageiros, e cumprindo a cada uma fazer do seu próprio coração o tabernáculo em que o adore em espírito e verdade, praticando as suas leis, desaparece inteiramente toda a razão de ser dos formalismos, cerimonias e exterioridades cultuais, que as religiões até agora inculcaram necessários à salvação dos homens.

O Espiritismo, pois, que vem preparar, inaugurar e estabelecer definitivamente na terra esse reinado do espírito, por Jesus anunciado e prometido à Samaritana, jamais se poderá constituir uma religião dogmática, enfronhada na modesta roupagem dos complicados e estéreis cerimoniais que caracterizam em geral todas as religiões.

Assim não o parecem infelizmente entender alguns confrades que, ora aqui, ora nos Estados - como esses do interior de S. Paulo- tem ido pouco a pouco introduzindo nas práticas espiritas umas tantas cerimônias, de que porventura se lhes afigura impossível prescindir.

Está neste caso o batismo, de que aqui particularmente nos ocuparemos, e que em maior ou menor escala vai sendo praticado em centros e grupos, a cujos diretores fazemos a justiça de atribuir a boa fé ingênua de com isso acreditarem não infringir as normas genuinamente espíritas.

Ora, é porque somos dos que consideram essas práticas uma infração positiva de tais normas, e num intuito de elucidação do assunto, na medida de nossa limitada capacidade, que são traçadas estas linhas.

Antes de tudo convém definir a significação e os efeitos daquele sacramento e para isso não é necessário mais que recorrermos à fonte originária e às tradições religiosas de que procede, e em que ainda permanece.

O batismo da água foi instituído primitivamente, mas transitoriamente, por João, o precursor, por isso denominado o Batista, que, porém, anunciava abertamente que, após ele vinha o que batizaria no espírito, isto é, o Cristo, que daria aos homens as leis espirituais pelas quais se deveriam reger de então em diante, regenerando-se em seus preceitos, que não nas abluções exteriores, de mero simbolismo. Esse símbolo não era, contudo aplicados senão a homens adultos, e depois de uma pública penitência ou confissão de suas faltas, submetendo-se eles espontaneamente, livre e voluntariamente a essa prática.

Introduzido mais tarde nos hábitos da igreja cristã, então nascente, veio a adquirir o cunho de um dogma perfeitamente característico e definido, tal como até hoje se mantém, atribuindo-se-lhe o maior alcance e a mais alta significação.

São estes os seus efeitos: extingue-se a mácula do pecado original e torna cristão; confere a graça santificante, como dá direito aos frutos da redenção e, por conseguinte, ao céu torna filho da igreja, submetido às suas leis e apto a receber os outros sacramentos, que sem ele são nulos. Imprime à alma uma característica inapagável e não pode por isso ser jamais reiterado. É, finalmente, indispensável à salvação.

Assim, o estatuiu a teologia católica, a que nos reportamos fielmente. E tamanha era a importância que lhe atribuíram que, nos primeiros tempos da igreja, organizada como tal, os adultos não eram admitidos ao batismo senão depois de terem percorrido os três sucessivos graus do catecumenato: primeiramente como ouvintes, recebiam a necessária instrução; em seguida, como competentes, assistiam ao começo da missa e praticavam as abstinências de preceito; como eleitos, por fim, recebiam solenemente o batismo, ministrado quer na véspera da Páscoa, quer do Pentecostes.

Eis aí, pois, definido em sua significação e em seus efeitos esse sacramento, que alguns menos refletidos têm procurado introduzir nas práticas espiritas. E aqui cabe perguntar-Ihes se, adaptando-o, conservam -lhe os mesmos atributos e vantagens acima enumerados, desde a extinção do pecado original até a outorga formal da salvação.

Optarão sem duvida pela negativa e nem é preciso para isso aguardar-lhes o pronunciamento. Mas então a que título o adotam? Que significação lhe atribuem? Será por mero espírito servil de imitação que o copiam do ritual católico?

Há evidentemente- seja-nos licito afirmar de nossa parte- no fundo do pensamento que tem inspirado a uns tantos espíritas a introdução dessa cerimonia em seus processos, ou uma forte e inveterada reminiscência dos hábitos de passadas vidas. Ou, pelo menos, uma influência de sua atual educação religiosa.

Alegarão eles que o que praticam não é o batismo d'água, tal como o faz a igreja; alguns mesmo chegam com efeito, a dissimular o ato, substituindo-lhe o nome pelo de “apresentação espiritual” supondo ter assim dissipado toda confusão e porventura inventado alguma coisa nova. E esse será talvez o evasivo pretexto, de que muitos ainda se socorrerão, para não renunciar a tal prática, no seu conceito, indispensável à nova e estranha liturgia . Julgar-se-ão assim justificados, podendo alegar que não praticam o batismo: limitam-se à “apresentação” aos guias espirituais do recém-nato. 

Mas apresentação para que? Para esses guias invocados tomem sob sua proteção o espírito que mais uma vez volta ao planeta? Será então para isso indispensável uma tal formalidade, ou mesmo sem ela o guia espiritual não cessa de velar pelo ser confiado aos seus cuidados?

Se é indispensável, a doutrina espírita não está na verdade, quando afirma que toda criatura, todo espírito, desde o começo de sua evolução e durante a encarnação como na erraticidade, tem sempre a encaminhar- Ihe os passos e sugerir-lhe as boas resoluções um anjo tutelar, que o não abandona senão quando ele adiantou-se, evoluiu ao ponto de poder, por sua vez, constituir-se o guia de outros mais atrasados, como outrora o foi.

E se a apresentação não é indispensável - e não o é, porque seria a negação da previdência de Deus, desse modo colocada à mercê da claudicante iniciativa humana- nada justifica a sua supérflua inclusão nos hábitos espiritas. Deve, portanto, ser banida.

Ao demais, quando essa prática, com o nome de batismo ou de apresentação – importa pouco – não tivesse contra si a inoportunidade, isto é, quando não fosse levada a efeito ao momento em que o espírito encarnado menos consciência tem de si, por isso que se acha na plenitude da perturbação, mal entreabertos os olhos à indecisa luz do exterior e, por conseguinte menos pode conhecer os efeitos de um ato em que não toma parte, não constituiria menos esse enxerto um erro grave e um funesto precedente.

É um erro grave, porque importa antes de tudo em uma violação da liberdade de consciência individual. Por menos, com efeito, que se queira atribuir a esse batismo original o valor e o cunho da imposição da fé espírita, não é menos certo que o batizando ficará inscrito nos registros (?) da nova comunidade, com incontestável gáudio para as secretas intensões dos seus progenitores. Dirão estes que, sendo o Espiritismo a melhor das Doutrinas só pode haver benefício em se anteciparem eles à escolha de seu filho, incluindo de antemão nas fileiras a que há de pertencer mais tarde.

Foi assim que também raciocinaram nossos pais, quando nos fizeram conduzir à pia batismal, e foi igualmente assim que entenderam e praticaram todas as anteriores gerações, que- está-se vendo --possuíam do respeito ao livre arbítrio uma noção que não pode ser positivamente a mesma que possuem, ou pelo menos devem possuir, os espíritas. E com tudo isso não se puderam evitar as apostasias c abjurações.

Por melhor, pois, que considerem, e com justa razão- não há negar- a doutrina espirita em relação a todas as demais, nenhum pai tem contudo o direito de ligar de antemão seu filho, por uma fórmula ou uma cerimônia qualquer, a sua própria crença. O que lhe cumpre é educa-lo nos mais puros preceitos da moral cristã, mais por exemplos que por palavras, e esperar que, crescendo à sua sombra tutelar, venha ele mais tarde a adotar livremente as mesmas convicções religiosas. Se o contrario se der, se refratário aos ensinos e exemplos paternos, o filho, obedecendo a uma tendência natural de seu espírito, preferir qualquer outra das religiões ainda existentes sobre a terra , ao menos restará aos pais o consolo, não somente de ter cumprido o seu dever de exemplificação, mas também de haver fielmente respeitado a liberdade de consciência do que por Deus lhes fora confiado, abstendo-se de viola-la em qualquer tempo.

Reconhecemos quão difícil é atrair à própria crença pela integridade dos exemplos, que de alguma sorte impô-la por uma cerimônia momentânea; mas é muito útil e eficaz.

Quando ao precedente funesto a que aludimos, consiste ele no próprio fato da adoção de uma solenidade formalística, incompatível – repetimos – com o cunho eminente e exclusivamente espiritual da nossa Doutrina.

Há, com efeito, sempre um perigo na iniciativa de atos dessa ordem. E se é verdade que o Espiritismo, como dizíamos em começo, se apresenta e – temos fé – se conservará para o futuro com aquele característico de pura espiritualidade, graças sobretudo à universalidade da fonte em que se regenera e terá perpetuamente a segurança de sua evolutiva renovação - o mundo espiritual – não é menos certo que a adoção de exteriores formalidades pelos seus crentes poderá pelo menos criar embaraços às gerações futuras.

Convém nunca perder de vista as lições que a história da igreja nos oferece. Ao começo os cristãos se reuniam, para elevar ao céu as suas orações e estudar em comum o Testamento deixado pelo Divino Mestre, até um certo tempo conservado apenas na tradição oral, e mais tarde reduzido a texto escrito. Essa comunhão fraterna era ilustrada unicamente pela palavra dos profetas, ou médiuns, que, sob a inspiração e direção dos espíritos prepostos, dirimiam as dúvidas e elucidavam os ensinos.

Depois foram adotados alguns cânticos que, a pretexto de predispor as almas para o recolhimento e a unção religiosa, não foram mais que o pretexto fatal para outros acessórios, e mais outros, até chegar-se ao estado atual da igreja, que outrora, e por muito tempo infelizmente, foi do Cristo, mas que degenerou por fim nessa mundaneria em que o fausto, as pompas, as riquezas, tudo em suma o que pode entreter e lisonjear os sentidos, vieram a substituir esse indispensável trabalho de aperfeiçoamento da alma, mediante o cultivo de suas faculdades. Que contraste, realmente, entre aquelas assembleias recolhidas, afetuosas e fraternas dos primeiros cristãos e as solenidades pagãs e ruidosas da moderna igreja, entre a simplicidade espiritual e pura de suas crenças e o amontoado de dogmas, regras e pretensões teológicas atuais.

Cumpre pois, ter sempre em vista essas lições e banir sistematicamente tudo o que possa importar na organização de um ritual. Lembremo-nos de que muito pode o respeito ao passado e às tradições, e de que, instituindo certas práticas, colocaremos os nossos sucessores na desagradável perplexidade de, ao romper com os precedentes, escandalizando a muitos, ou conservar religiosamente o legado transmitido, em respeito à ‘sabedoria’ dos seus maiores.

E não será temerário nem gratuito vaticinar a possibilidade de se formarem correntes de opiniões em um e outro sentido, com evidente risco de perturbações e anarquias, que desde agora a prudência e a noção que devemos ter das nossas responsabilidades nos aconselham evitar.

Façamo-nos espíritas de fato e, como tais, homens novos, inteiramente emancipados de formalísticas rotinas, fiéis ao Cristo e aos seus mandatos, unicamente preocupados de por em prática os seus ensinos, hoje em toda a sua pureza restabelecidos em espírito e verdade.



Pedro Richard

Reformador (FEB), ano XXIII, número 23 em 03 de dezembro de 1905.

terça-feira, 10 de abril de 2012

JUSTIÇA E RESPONSABILIDADE – O PROBLEMA DO MAL


A lei dos renascimentos, dissemos, rege a vida universal. Com alguma atenção, poderíamos ler em toda a Natureza, como num livro, o mistério da morte e da ressurreição.

As estações sucedem-se no seu ritmo imponente. O inverno é o sono das coisas; a primavera é o acordar; o dia alterna com a noite; ao descanso segue-se a atividade; o Espírito ascende às regiões superiores para tornar a descer e continuar com forças novas a tarefa interrompida.

As transformações da planta e do animal não são menos significativas. A planta morre para renascer, cada vez que volta a seiva; tudo murcha para reflorir. A larva, a crisálida e a borboleta são outros tantos exemplos que reproduzem, com mais ou menos fidelidade, as fases alternadas da vida imortal.

Como seria, pois, possível que só o homem ficasse fora do alcance dessa lei? Quando tudo está ligado por laços numerosos e fortes, como admitir que nossa vida seja como um ponto atirado, sem ligação, para os turbilhões do tempo e do espaço? Nada antes, nada depois! Não. O homem, como todas as coisas, está sujeito à lei eterna. Tudo o que tem vivido reviverá em outras formas para evoluir e aperfeiçoar-se. A Natureza não nos dá a morte senão para dar-nos a vida. Em conseqüência da renovação periódica das moléculas do nosso corpo, que as correntes vitais trazem e dispersam, pela assimilação e desassimilação cotidianas, já habitamos um sem-número de invólucros diferentes numa única vida. Não é lógico admitir que continuaremos a habitar outros no futuro?

A sucessão das existências apresenta-se-nos, pois, como uma obra de capitalização e aperfeiçoamento. Depois de cada vida terrestre, a alma ceifa e recolhe, em seu corpo fluídico, as experiências e os frutos da existência decorrida. Todos os seus progressos refletem-se na forma sutil da qual é inseparável, no corpo etéreo, lúcido, transparente, que, purificando-se com ela, se transforma no instrumento maravilhoso, na harpa que vibra a todos os sopros do Infinito.

Assim, o ser psíquico, em todas as fases de sua ascensão, encontra-se tal qual a si mesmo se fez. Nenhuma aspiração nobre é estéril, nenhum sacrifício baldado. E na obra imensa todos são colaboradores, desde a alma mais obscura até o gênio mais radioso. Uma cadeia sem fim liga os seres na majestosa unidade do Cosmo. É uma efusão de luz e amor que, das cumeadas divinas, jorra e se derrama sobre todos, para regenerá-los e fecundá-los. Ela reúne todas as almas em comunhão universal e eterna, em virtude de um princípio que é a mais esplêndida revelação dos tempos modernos.

A alma deve conquistar, um por um, todos os elementos, todos os atributos de sua grandeza, de seu poder, de sua felicidade, e para isso precisa do obstáculo, da natureza resistente, hostil mesmo, da matéria adversa, cujas exigências e rudes lições provocam seus esforços e formam sua experiência. Daí, também, nos estádios inferiores da vida, a necessidade das provações e da dor, a fim de que se inicie sua sensibilidade e ao mesmo tempo se exerça sua livre escolha e cresçam sua vontade e sua consciência. É indispensável a luta para tornar possível o triunfo e fazer surgir o herói. Sem a iniqüidade, a arbitrariedade, a traição, seria possível sofrer e morrer por amor da justiça?

Cumpre que haja o sofrimento físico e a angústia moral para que o espírito seja depurado, limpe-se das partículas grosseiras, para que a débil centelha, que se está elaborando nas profundezas da inconsciência, se converta em chama pura e ardente, em consciência radiosa, centro de vontade, energia e virtude.

Verdadeiramente só se conhecem, saboreiam e apreciam os bens que se adquirem à própria custa, lentamente, penosamente. A alma, criada perfeita, como o querem certos pensadores, seria incapaz de aquilatar e até de compreender sua perfeição, sua felicidade. Sem termos de comparação, sem permutas possíveis com seus semelhantes, perfeitos quanto ela, sem objetivo para sua atividade, seria condenada à inação, à inércia, o que seria o pior dos estados; porque viver, para o espírito, é agir, é crescer, é conquistar sempre novos títulos, novos méritos, um lugar cada vez mais elevado na hierarquia luminosa e infinita. E para merecê-lo é necessário ter penado, lutado, sofrido. Para gozar da abundância é preciso ter conhecido as privações. Para apreciar a claridade dos dias é mister haver atravessado a escuridão das noites. A dor é a condição da alegria e o preço da virtude, sendo esta última o bem mais precioso que há no universo.

Construir o próprio “eu”, sua individualidade através de milhares de vidas, passadas em centenas de mundos e sob a direção de nossos irmãos mais velhos, de nossos amigos do espaço, escalar os caminhos do Céu, arrojarmo-nos cada vez mais para cima, abrir um campo de ação cada vez mais largo, proporcionado à obra feita ou sonhada, tornarmo-nos um dos atores do drama divino, um dos agentes de Deus na obra eterna, trabalhar para o universo, como o universo trabalha para nós, tal é o segredo do destino!

Assim, a alma sobe de esfera em esfera, de círculos em círculos, unida aos seres que tem amado; vai, continuando as suas peregrinações, em procura das perfeições divinas. Chegada às regiões superiores, está livre da lei dos renascimentos; a reencarnação deixa de ser para ela obrigação para tornar-se somente ato de sua vontade, o cumprimento de uma missão, obra de sacrifício.

Depois que atingiu as alturas supremas, o Espírito diz, às vezes, de si para si:

“Sou livre; quebrei para sempre as algemas que me acorrentavam aos mundos materiais. Conquistei a ciência, a energia, o amor. Mas o que granjeei quero repartir com meus irmãos, os homens, e para isso irei de novo viver entre eles, irei oferecer-lhes o que de melhor há em mim, retomarei um corpo de carne, descerei outra vez para junto daqueles que penam, que sofrem, que ignoram, para os ajudar, consolar e esclarecer.”

E, então, temos Lao-Tse, Buda, Sócrates, Cristo, numa palavra, todas as grandes almas que têm dado sua vida pela humanidade!



Léon Denis

Livro: O problema do ser, do destino me da dor.

sábado, 7 de abril de 2012

PRÁTICAS DISTANTES – SEMANA SANTA

Agora que chegou! Mas todo ano, a cena se repete. Chega a época dos feriados católicos da chamada "Semana Santa" e surgem as questões:

Como o Espiritismo encara a Páscoa; “Sexta-feira Santa"?;

Qual o procedimento do espírita no chamado "Sábado de aleluia" e "Domingo de Páscoa"?;

Como fica a questão do "Senhor Morto"?

Sabe que chego a surpreender-me com as perguntas. Não quando surgem de novatos na Doutrina, mas quando surgem de velhos espíritas, condicionados ao hábito católico, que aliás, respeitamos muito. É importante destacar isso: o respeito que devemos às práticas católicas nesta época, desde à chamada época, por nossos irmãos denominada de quaresma, até às lembranças históricas, na maioria das cidades revividas, do sacrifício e ressurgimento de Jesus. Só que embora o respeito devido, nada temos com isso no sentido das práticas relacionadas com a data.

São práticas religiosas merecedoras de apreço e respeito, mas distantes da prática espírita. É claro que há todo o contexto histórico da questão, os hábitos milenares enraizados na mente popular, o condicionamento com datas e lembranças e a obrigação católica de adesão a tais práticas.

Para a Doutrina Espírita, não há a chamada "Semana Santa", nem tão pouco o "Sábado de aleluia" ou o "Domingo de Páscoa" (embora nossas crianças não consigam ficar sem o chocolate, pela forte influência da mídia no consumismo aproveitador da data) ou o "Senhor Morto". Trata-se de feriado e prática católica e portanto, não existem razões para adesão de qualquer tipo ou argumento a tais práticas. É absolutamente incoerente com a prática espírita o desejar de "Feliz Páscoa!", a comemoração de Páscoa em Centros Espíritas ou mesmo alteração da programação espírita nos Centros, em virtude de tais feriados católicos. E vejo a preocupação de expositores ou articulistas em abordar a questão, por força da data... Não há porque fazer-se programas de rádio específicos sobre o assunto, palestras sobre o tema ou publicar artigos em jornais só porque estamos na referida data. É óbvio que ao longo do ano, vez por outra, abordaremos a questão para esclarecimento ou estudo, mas sem prender-se à pressão e força da data.

Há uma influência católica muito intensa sobre a mente popular, com hábitos enraizados, a ponto de termos somente feriados católicos no Brasil, advindos de uma época de dominação católica sobre o país, realidade bem diferente da que se vive hoje. E os espíritas, afinados com outra proposta, a do Cristo Vivo, não têm porque apegar-se ou preocupar-se com tais questões.

Respeitemos nossos irmãos católicos, mas deixemo-los agir como queiram, sem o stress de esgotar explicações. Nossa Doutrina é livre e deve ser praticada livremente, sem qualquer tipo de vinculação com outras práticas. Com isso, ninguém está a desrespeitar o sacrifício do Mestre em prol da Humanidade. Preferimos sim ficar com seus exemplos, inclusive o da imortalidade, do que ficar a reviver a tragédia a que foi levado pela precipitação humana.

Inclusive temos o dever de transmitir às novas gerações a violência da malhação do Judas, prática destoante do perdão recomendado pelo Mestre, verdadeiro absurdo mantido por mera tradição, também incoerente com a prática espírita.

A mesma situação ocorre quando na chamada quaresma de nossos irmãos católicos, espíritas ficam preocupados em comer ou não comer carne, ou preocupados se isto pode ou não. Ora, ou somos espíritas ou não somos! Compara-se isso a indagar se no Carnaval os Centros devem ou não abrir as portas, em virtude do pesado clima que se forma???!!!... A Doutrina Espírita nada tem a ver com isso. São práticas de outras religiões, que repetimos respeitamos muito, mas não adotamos, sendo absolutamente incoerente com o espírita e prática dos Centros Espíritas, qualquer influência que modifique sua programação ou proposta de vida.

Esta abordagem está direcionada aos espíritas. Se algum irmão católico nos ler, esperamos nos compreenda o objetivo de argumentação da questão, internamente, para os próprios espíritas. Nada a opor ou qualquer atitude de crítica a práticas que julgamos extremamente importantes no entendimento católico e para as quais direcionamos nosso maior respeito e apreço.

Vemos com ternura a dedicação e a profunda fé católica que se mostram com toda sua força durante os feriados da chamada Semana Santa e é claro, nas demais atividades brasileiras que o Catolicismo desenvolve.

O objetivo da abordagem é direcionado aos espíritas que ainda guardam dúvidas sobre as três questões apresentadas no início do artigo. O Espiritismo encara a chamada Sexta-feira Santa como uma Sexta-feira normal, como todas as outras, embora reconhecendo a importância dela para os católicos. Também indica que não há procedimento algum para os dias desses feriados. E não há porque preocupar-se com o Senhor Morto, pois que Jesus vive e trabalha em prol da Humanidade.

E aqui, transcrevemos trecho do capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, no subtítulo VERDADEIRA PUREZA, MÃOS NÃO LAVADAS (página 117 - 107ª edição IDE): "O objetivo da religião é conduzir o homem a Deus; ora, o homem não chega a Deus senão quando está perfeito; portanto, toda religião que não torna o homem melhor, não atinge seu objetivo; (...) A crença na eficácia dos sinais exteriores é nula se não impede que se cometam homicídios, adultérios, espoliações, calúnias e de fazer mal ao próximo em que quer que seja. Ela faz supersticiosos, hipócritas e fanáticos, mas não faz homens de bem. Não basta, pois, ter as aparências da pureza, é preciso antes de tudo ter a pureza de coração".

Não pensem os leitores que extraímos o trecho pensando nas práticas católicas em questão. Não! Pensamos em nós mesmos, os espíritas, que tantas vezes nos perdemos em ilusões, acreditando cegamente na assistência dos espíritos benfeitores, mas agindo com hipocrisia, fanatismo e pasmem, superstição .... quando não conhecemos devidamente os objetivos da Doutrina Espírita, que são, em última análise, a melhora moral do homem.



(Publicado no Boletim GEAE Número 390 de 02 de maio de 2000)

domingo, 1 de abril de 2012

DIVULGAÇÃO ESPÍRITA


“Efetivamente, as vossas responsabilidades no plano terrestre vos concitam a trabalho árduo no que se refere à implantação das idéias libertadoras da Doutrina Espírita a que fomos traduzidos a servir”.

Em verdade, nós outros, os amigos desencarnados, até certo ponto, nos erigimos nos companheiros da inspiração, mas as realidades objetivas são vossas, enquanto desfrutardes as prerrogativas da encarnação.

Compreendamos que a vossa tarefa na divulgação do Espiritismo é ação gigantesca, de que não vos será licito desertar.

Nesse aspecto do assunto, urge considerarmos o impositivo da distribuição eqüitativa e plena dos valores espirituais, tanto quanto possível, em benefício de todos.

Devotemo-nos à cúpula, de vez que em qualquer edificação o teto é a garantia da obra, no entanto, é forçoso recordar que a estrutura e o piso são de serventia preciosa, cabendo-lhes atender à vivência de quantos integram no lar a composição doméstica.

Em Doutrina Espírita, encontramos a Terra toda por lar de nossas realizações comunitárias e, por isso mesmo, a cúpula das idéias é conclamada e benéfica, em auxílio da coletividade.

Não vos isoleis em qualquer pontos de vista, sejam eles quais forem.

Estudai todos os temas da Humanidade e ajustai-vos ao progresso cujo carro prossegue em marcha irreversível.

Observai tudo e selecionai os ingredientes que vos pareçam necessários ao bem geral.

Nem segregação sistemática na cultura acadêmica, nem reclusão absoluta nas afirmativas do sentimento.

Vivemos um grande minuto na existência planetária no qual a civilização para sobreviver

há de alçar o coração ao nível do cérebro e controlar o cérebro, de tal modo, que o coração não seja sufocado pelas aventuras da inteligência.

Equilíbrio e justiça.

Harmonia e compreensão.

Nesse sentido, saibamos orientar a palavra espírita, no rumo do entendimento fraternal.

Todos necessitamos de luz renovadora.

Imperioso saber conduzi-la, através das tempestades que sacodem o mundo de hoje, em todos os distritos da opinião.

Congreguemo-nos todos na mesma formação de trabalho, conquanto se faça imprescindível a sustentação de cada um no encargo que lhe compete.

Nenhuma inclinação à desordem, a pretexto de manter coesão, e nenhum endosso à violência sob a desculpa de progresso.

Todos precisamos penetrar no conhecimento da responsabilidade de viver e sentir, pensar e fazer.

Os melhores necessitam do Espiritismo para não perder o seu próprio gabarito nos domínios da elevação.

Os companheiros da retaguarda evolutiva necessitam dele para se alterarem de condição.

Os felizes reclamam-lhe o amparo, a fim de não se desmandarem nas facilidades que transitoriamente lhes enfeitam as horas.

Os menos felizes pedem-lhe o socorro, a fim de se apoiarem na certeza do futuro melhor.

Os mais jovens solicitam-lhe os avisos para se organizarem perante a experiência que lhes acena ao porvir e os companheiros amadurecidos na idade física esperam-lhe o auxílio para suportarem com denodo e proveito as lições que o mundo lhes reserva na hora crepuscular.

Tendes convosco todo um mundo de realizações a mentalizar, preparar, levantar, construir.

Não nos iludamos.

Hoje dispondes da ação, do corpo que envergais; amanhã seremos nós, os amigos desencarnados, que vos substituiremos na arena do serviço.

A nossa interdependência é total.

Ante a imortalidade, estejamos convencidos de que voltaremos sempre à retaguarda para corrigir-nos, retificando os erros que tenhamos, acaso, perpetrado.

Mantenhamo-nos vigilantes.

Jesus na Revelação e Kardec no Esclarecimento resumem para nós códigos numerosos de orientação e conduta.

Estamos ainda muito longe de qualquer superação, à frente de um e de outro, porque, realmente, os objetivos essenciais do Evangelho e da Codificação do Espiritismo exigem ainda muito esforço de nossa parte para serem, por fim, atingidos.

Reflitamos: sem comunicação não teremos caminho.

Estudemos e revisemos todos os ensinos da Verdade, aprendendo a criar estradas espirituais de uns para os outros.

Estradas que se pavimentem na compreensão de nossas necessidades e problemas em comum, a fim de que todas as nossas indagações e questões sejam solucionadas com eficiência e segurança.

Sem intercâmbio não evoluiremos: sem debate, a lição estanque no poço da inexperiência, até que o tempo lhe imponha a renovação.

Trabalhemos servindo e sirvamos estudando e aprendendo. E guardemos a convicção de que, na Bênção do Senhor, estamos e estaremos todos reunidos uns com os outros, hoje quanto amanhã, agora e sempre.



(Bezerra de Menezes, mensagem recebida em 6.12.1969, psicografia Chico Xavier - Livro "Bezerra, Chico e Você")