sexta-feira, 27 de julho de 2012

A DIFERENÇA ENTRE CRER E TER FÉ

“Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé"

O notável professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, em um de seus oportunos comentários inseridos no livro “A Mensagem Viva do Cristo”, obra que compreende a tradução feita por ele mesmo dos quatro evangelhos, diretamente do grego do primeiro século, convida-nos a refletir sobre a significativa distinção entre crer e ter fé. Para ele, a não compreensão dessa questão tem deturpado a teologia e trazido enorme prejuízo à mensagem do Cristo ao longo desses 2000 anos.

 Escreve ele:

 “Desde os primeiros séculos do Cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido para o latim, principiou a funesta identificação de crer com ter fé. A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo é pisteuein. Infelizmente, o substantivo latino fides, o correspondente a pistis, não tem verbo e assim, os tradutores latinos se viram obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o grego pisteuein, ter fé. O verbo latino que substituiu o grego pisteuein é credere, que em português deu crer. Nenhuma das cinco línguas neo latinas — português, espanhol, italiano, francês, rumeno — possui verbo derivado do substantivo fides; fé; todas essas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere. Ora, a palavra pistis ou fides significa originariamente harmonia, sintonia, consonância. Ter fé é estabelecer ou ter sintonia, harmonia entre o espírito humano e o espírito divino.”

 Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia

 Para o ilustre filósofo, aí está um dos maiores problemas que em muito vem prejudicando a teologia e, para explicar a diferença de significado entre uma coisa e outra, estabelece ele o seguinte paralelo ilustrativo: “Um receptor de rádio só recebe a onde eletrônica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado perfeitamente com a freqüência da emissora. Se a emissora, por exemplo, emite uma onda de freqüência 100, o meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a freqüência 100. Só neste caso, o meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia; fideliza com a emissora”.

 Dentro desse contexto, “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência”, argumenta o professor Rohden.

 Salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus

 Para ele, a conhecida frase “quem crer será salvo, quem não crer será condenado”, é absurda e blasfema no sentido em que ela é geralmente usada pelos teólogos. No entanto, “se lhe dermos o sentido verdadeiro ‘quem tiver fé será salvo’ ela está certa, porque salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus”.

 Em sua opinião, de sincero buscador, erudito e filósofo espiritualista “a substituição de ter fé por crer há quase 2000 anos, está desgraçando a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo”.



Consciência Espírita

Centro de Estudos Espíritas Paulo Apóstolo

domingo, 22 de julho de 2012

O SOFRIMENTO MORAL


"Oh! vós, que recusais valor ao sacrifício de Jesus, por não se achar ele revestido de um corpo de carne, perecível como os vossos, abri os vossos próprios corações e perscrutai, com sinceridade, o fundo de vossas almas. Que preferiríeis: suportar a tortura do corpo, ou suportar o desespero de testemunhar a ingratidão, a negrura d'alma, o crime naqueles a quem mais amor tendes do que a vós mesmos?

"Vós todos, que não vos encontrais dominados pelo egoísmo, pais, mães, filhos, criaturas humanitárias que considerais todos os homens como vossos irmãos bem-amados, quais não são os vossos sofrimentos quando vedes aqueles a quem fizestes objeto do vosso mais terno amor vos repelirem com desprezo e vos atirarem pedras?

"Jesus não pode ter sofrido como os outros homens, porque não era da natureza destes!

"Não, a sua natureza não era idêntica à dos outros homens e por isso ele não sofreu da maneira por que sofrem os habitantes materiais do vosso planeta inferior. Entretanto, por serem de outra ordem, seus sofrimentos não terão sido superiores aos da Humanidade terrena?

"Seu corpo fluídico, de natureza perispirítica, tangível e visível para os homens, não era suscetível de experimentar a dor material, porque, efetivamente, as sensações que recebia nenhuma relação tinham com a impressão dolorosa que causam a amputação de um membro, a contusão numa parte qualquer do corpo humano. Era, porém, suscetível de receber impressões exteriores que repercutiam no moral com violência, para vós, inaudita. Eis porque vos dizemos que Jesus, vítima voluntária do amor que consagra aos seus protegidos - os homens da Terra, se bem não sofresse do ponto de vista carnal, sofreu violentamente.

"Para o avaliardes, esforçai-vos por perceber as sensações que certas naturezas de escol experimentam quando as punge uma dor moral, a profundeza do golpe que recebem quando lhes chega uma notícia má, as torturas por que as fazem passar a ingratidão, a maldade; quando elas se veem, ou veem os que são objeto da sua mais terna afeição alvo da perseguição ou da calúnia.

"Não prefeririam essas almas sensíveis uma dor material ao contínuo sofrimento moral que as despedaça? E, levado a certo ponto, esse sofrimento moral não atinge as proporções materiais do sofrimento do corpo, não as ultrapassa até? Não lhes altera os órgãos, ao ponto de causar a sua decomposição? Não vedes muitas vezes a intranquilidade, a aflição, a consumição lhes acarretarem a morte, no sentido de que produzem nos seus organismos estragos a que elas não podem resistir? E ainda vos recusareis a reconhecer que certos sofrimentos morais são verdadeiramente intoleráveis?

"Quais não seriam os sentimentos de Jesus para convosco? Quais não terão sido a sua mágoa, a sua tristeza, vendo-vos tão ingratos, tão covardes, tão culpados? Ele sofria e ainda sofre. O sacrifício a que se votou dura ainda e durará até que haja reunido todas as suas ovelhas sob as dobras do seu manto protetor.

"Não digais: "Para que serve um sacrifício imaginário?" Seu sacrifício foi real e tanto mais real quanto só o Espírito, é capaz de sentir sofrimento.

"Os sofrimentos morais de Jesus estão em relação com a carência de esforços da vossa parte, para corresponder aos seus. f, (Tomo[1] IV, páginas 353/5).

"Jesus, naqueles momentos, sofria, sofria muito no seu coração pelo endurecimento dos homens. Sofria por ver que séculos e séculos teriam que passar sobre as vossas cabeças antes que o batismo do espírito vos purificasse. Sofria, vendo quantos sofrimentos o futuro reservava a seus irmãos, aos quais votava amor tão ardente que, para lhes mostrar o caminho que devem trilhar, consentiu em perlustrá-lo .

"Experimentava as angústias que dilaceram o coração da mãe extremosa que vê transviados, criminosos, seus filhos diletos; que vê prestes a caírem sobre eles os rigores da lei; que lhes brada: "Vinde a mim, vinde a mim e eu vos salvarei; arrependei-vos e obterei o perdão para vós", e os vê surdos, a lhe voltarem as costas, para prosseguirem no funesto caminho. Ela não sofre, é certo, na sua carne, a carinhosa mãe; seus ossos não são despedaçados. Mas, todas as fibras do seu coração estalam dolorosamente; torturam-na a ansiedade, a aflição pelo futuro de seus bem-amados!" (Tomo III, pág. 417).

"O sofrimento, na essência espiritual, é mais forte e mais vivo do que o possam ser, para os vossos corpos, quaisquer sofrimentos humanos." (Tomo II, pág. 427).



CAUSAS MORAIS DAS DORES FÍSICAS



"Remonte ele à origem do mal, sobretudo procure sempre a causa moral em todas as dores físicas, dores orgânicas - bem entendido.

"Aquele que quebra um braço não pode acusar nenhuma dor secreta ou maus pendores; porém, nos inúmeros males que afligem a Humanidade, pesquisai bem o fundo dos corações e das consciências e encontrareis a raiz dessa árvore que se estende por todos os membros. O coração ou a alma quase sempre estão atacados. Daí a perturbação do sistema nervoso, fonte de todas as enfermidades, de todos os sofrimentos. Perscrutai os antecedentes do que sofre e muitas vezes descobrireis o pesar oculto de uma ação, um acontecimento que interessou a saúde, viciando o sangue que devia circular puro nas veias." (Tomo Il, pág. 31/2).

Quando foi dada esta mensagem, Segismundo Freud era um menino de cinco anos de idade; no entanto, estas últimas linhas parecem copiadas de um tratado de Psicanálise. Não só Freud atribui as doenças a recalques, como, muitos médicos ilustres hoje compreendem as influências do pensamento e do sentimento sobre a, saúde e recomendam o cultivo do bom humor, da alegria, para restauração da saúde. A pouco e pouco a ciência humana vai descobrindo a solidariedade entre o corpo e o Espírito. Tendemos ao médico-sacerdote que trate simultaneamente do corpo e da alma, como o fazia Jesus.

Nos povos primitivos as funções do médico e sacerdote eram exercidas pelo mesmo individuo. A esse respeito escreveu Stefan Zweig um livro precioso com o título "Heilung durch den Geist" ("A cura através do espírito"). Quando nos libertarmos de todos os nossos defeitos morais, não formos mais escravos do pecado, ficaremos livres também das doenças. Compreende-se que isso levará longo tempo, porque trazemos uma bagagem muito pesada de encarnações pretéritas e teremos que expiar todas as faltas, antes de chegarmos à perfeição moral que refletirá em benefício de nosso físico.

Presentemente a Humanidade da Terra passa por uma onda de materialismo que nos impressiona. As crenças antigas não satisfazem mais ao homem intelectualmente desenvolvido e ele as abandona, mesmo quando se conserva profitente de uma igreja. O Espiritismo ainda se acha pouco desenvolvido na sua missão de substituir as antigas crenças simplistas. Também ele se perdeu, em muitos países, num emaranhado de sofismas e experimentação estéril.

Parece longe o tempo em que em todos os povos do mundo o Espiritismo se divulgue suficientemente para transformar  a nossa civilização materialista. As mensagens dos nossos Maiores nos advertem de que essa restauração do Cristianismo terá que partir do nosso país e como o Brasil ainda exerce pouquíssima influência no sentimento universal, por isso que sua língua nacional é um túmulo para o pensamento, vemos que essa missão não se acha num futuro próximo, mas muito afastado; porque, antes disso, terão que ser abolidas as barreiras linguísticas que insulam intelectualmente os povos. Compreendendo esse aspecto linguístico do magno problema, a Federação Espírita Brasileira incorporou a divulgação do Esperanto à sua tarefa, e vai dando os primeiros passos na preparação desse glorioso porvir. Não ignoramos que será trabalho longo, mas sabemos igualmente que temos em nossa frente todos os séculos e milênios vindouros, porque a morte não existe e o Senhor da Seara nos permitirá voltar ao seu serviço tantas vezes quantas se faça mister para cumprirmos fielmente nossas tarefas.

Virá o tempo em que não teremos o sofrimento moral nem o físico, porque estarão vencidos o pecado e a dor.



Reformador (FEB) Abril  1950

[1] Refere-se aos quatros tomos que constituem  ‘Os Quatro Evangelhos’ coordenados por J-B Roustaing.

sábado, 14 de julho de 2012

DOUTRINA ESPÍRITA – FALTA DE FORMAÇÃO DOUTRINÁRIA


Sem a formação doutrinária, não teremos um movimento espírita coeso e coerente. E, sem coesão e coerência, não teremos Espiritismo. Essa a razão por que os Espíritos Superiores confiaram às mãos de Kardec o pesado trabalho da Codificação. Kardec teve de arcar, sozinho, com a execução dessa obra gigantesca. Só ele estava em condições de realizá-la.

Depois de Kardec, o que vimos? Léon Denis foi o único dos seus discípulos que conseguiu manter-se à altura do mestre, contribuindo vigorosamente para a consolidação da Doutrina. Era, aparentemente, o menos indicado. Não tinha a formação cultural de Kardec, residia na província, não convivera com ele, mas soubera compreender a posição metodológica do Espiritismo e não a confundia com os desvarios espiritualistas da época. Depois de Denis, foi o dilúvio.

A Revista Espírita virou um saco de gatos. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas naufragou em águas turvas. A Ciência e a Filosofia Espíritas ficaram esquecidas. O aspecto religioso da Doutrina transviou-se na ignorância e no fanatismo. Os sucessores de Kardec fracassaram inteiramente na manutenção da chama espírita, na França. E, quando a Arvore do Evangelho foi transplantada para o Brasil, segundo a expressão de Humberto de Campos, veio carregada de parasitas mortais que, ao invés de extirpar, tratamos de cultivar e aumentar com as pragas da terra. Tudo isso por quê? Por falta pura e simples de formação doutrinária. A prova está aí, bem visível, no fluidismo e no obscurantismo que dominam o nosso movimento no Brasil e no Mundo.

Os poucos estudiosos, que se aprofundaram no estudo de Kardec, vivem como náufragos num mar tempestuoso, lutando, sem cessar, com os mesmos destroços de sempre. Não há estudo sistemático e sério da Doutrina. E o que é mais grave, há evidente sintoma de fascinação das trevas, em vastos setores representativos que, por incrível que pareça, combatem por todos os meios o desenvolvimento da cultura espírita.

Enquanto não compreendermos que Espiritismo é cultura, as tentativas de unificação do nosso movimento não darão resultados reais. Darão aproximações arrepiadas de conflitos, aumento quantitativo de adeptos ineptos, estimulação perigosa de messianismos individuais e de grupos. Flamarion, que nunca entendeu realmente a posição de Kardec, e chegou a dizer que ele fez obra um tanto pessoal, como se vê no seu famoso discurso ao pé do túmulo, teve, entretanto, uma intuição feliz quando o chamou de bom senso encarnado. Esse bom senso é que nos falta. Parece haver se desencarnado com Kardec, e volatizado com Denis.

Hoje, estamos na era do contra-senso. Os mesmos órgãos de divulgação doutrinária que pregam o obscurantismo exibem pavoneios de erudição personalista, em nome de uma cultura inexistente. Porque cultura não é erudição, livros empilhados nas estantes, fichário em ordem para consultas ocasionais. Cultura è assimilação de conhecimentos e bom senso em ação. O que fazer diante dessa situação? Cuidar da formação espírita das novas gerações, sem esquecer a alfabetização de adultos. Mobral: esse o recurso. Temos de organizar o Mobral do Espírito. E começar tudo de novo, pelas primeiras letras. Mas, isso em conjunto, agrupando elementos capazes, de mente arejada e coração aberto. Foi por isso que propus a criação das Escolas de Espiritismo, em nível universitário, dotadas de amplos currículos de formação cultural espírita.

Podem dizer que há contradições entre Mobral e nível universitário. Mas, nota-se, que falamos de Mobral do Espírito. A Cultura Espírita é o desenvolvimento da cultura acadêmica, é o seguimento natural da cultura atual, em que se misturam elementos cristãos, pagãos e ateus. Para iniciar-se na cultura espírita, o estudante deve possuir as bases da cultura anterior. "Tudo se encadeia no Universo", como ensina, repetidamente, O Livro dos Espíritos. Quem não compreende esse encadeamento, tem de iniciar pelo Mobral. Não há outra forma de adaptá-lo às novas exigências da nova cultura. A verdade nua e crua é que ninguém conhece Espiritismo.

Ninguém, mesmo, no Brasil e no Mundo. Estamos todos aprendendo, ainda, de maneira canhestra. E se me permito escrever isto, é porque aprendi, a duras penas, a conhecer a minha própria indigência. No Espiritismo, como já se dava no Cristianismo e na própria filosofia grega, o que vale é o método socrático. Temos, antes de tudo, de compreender que nada sabemos. Então, estaremos, pelo menos, conscientes de nossa ignorância e capazes de aprender. Mas, aprender com quem? Sozinhos, como autodidatas, tirando nossas próprias lições dos textos, confiantes nas luzes da nossa ignorância? Recebendo lições de outros que tateiam como nós, mas que estufam o peito de auto-suficiência e pretensão? Claro que não. Ao menos isso devemos saber.

Temos de trabalhar em conjunto, reunindo companheiros sensatos, bem intencionados, não fascinados por mistificações grosseiras e evidentes, capazes de humildade real, provada por atos e atitudes. Assim conjugados, poderemos aprender de Kardec, estudando suas obras, mergulhando em seus textos, lembrando-nos de que foi ele e só ele o incumbido de nos transmitir o legado do Espírito da Verdade. Kardec é a nossa pedra de toque. Não por ser Kardec, mas por ser o intérprete humilde que foi, o homem sincero e puro a serviço dos Espíritos Instrutores. É o que devemos ter nas Escolas de Espiritismo.

Não Faculdades, nem Academias, mas, simplesmente, Escolas. O sistema universitário implica pesquisas, colaboração entre professores e alunos, trabalho conjugado e sem presunção de superioridade de parte de ninguém. O simpósio e o seminário, o livre-debate, enfim, é que resolvem, e não o magister do passado. O espírito universitário, por isso mesmo, é o que melhor corresponde à escola espírita. Num ambiente assim, os Espíritos Instrutores disporão de meios para auxiliar os estudantes sinceros e despretensiosos.

A formação espírita exige ensino metódico, mas, ao mesmo tempo, livre. Foi o que os Espíritos deram a Kardec: um ensino de que ele mesmo participava, interrogando os mestres e discutindo com eles. Por isso, não houve infiltração de mistificadores na obra inteiriça, nesse bloco de lógica e bom senso, que abrange os cinco livros fundamentais de Codificação, os volumes introdutórios e os volumes da Revista Espírita, redigidos por ele durante quase doze anos de trabalho incessante. Essa obra gigantesca é a plataforma do futuro, o alicerce e o plano de um novo mundo, de uma nova civilização.

Seria absurdo pensar que podemos dominar esse vasto acervo de conhecimentos novos, de conceitos revolucionários, através de simples leituras individuais, sem método e sem pesquisa. Nosso papel, no Espiritismo, tem sido o de macacos em loja de louças. E incrível a leviandade com que oradores e articulistas espíritas tratam de certos temas, com uma falsa suficiência de arrepiar, lançando confusões ridículas no meio doutrinário. Temos de compreender que isso não pode continuar. Chega de arengas melífluas nos Centros, de oratória descabelada, de auditórios basbaques, batendo palmas e palavreado pomposo. Nada disso é Espiritismo. Os conferencistas espíritas precisam ensinar Espiritismo - que ninguém conhece - mas para isso precisam primeiro aprendê-lo. Precisamos de expositores didáticos, servidos por bom conhecimento doutrinário, arduamente adquirido em estudos e pesquisas.

Expor os temas fundamentais da Doutrina, não é falar bonito, com tropos pretensamente literários, que só servem para estufar vaidade, à maneira da oratória bacharelesca do século passado. Esse palavrório vazio e presunçoso não constrói nada e só serve para ridicularizar o Espiritismo ante a mentalidade positiva e analítica do nosso tempo. Estamos numa fase avançada da evolução terrena. Nossa cultura cresceu espantosamente nos últimos anos e já está chegando à confluência dos princípios espíritas em todos os campos. A nossa falta de formação cultural espírita não nos permite enfrentar a barreira dos preconceitos para demonstrar ao mundo que Espiritismo, como escreveu Humberto Mariotti, é uma estrela de amor que espera no horizonte do mundo o avanço das ciências. E curiosa e ridícula a nossa situação. Temos o futuro nas mãos e ficamos encravados no passado mitológico e nas querelas medievais. Mas, para superar essa situação, temos de aprender com Kardec.

Os que pretendem superar Kardec, não o conhecem. Se o conhecessem, não assumiriam a posição ridícula de críticos e inovadores do que, na verdade, ignoram. Chegamos a uma hora de definições. Precisamos definir a posição cultural espírita perante a nova cultura dos tempos novos. E só faremos isso através de organismos culturais bem estruturados, funcionais, dotados de recursos escolares capazes de fornecer, aos mais aptos e mais sinceros, a formação cultural de que todos necessitamos, com urgência.



Texto de José Herculano Pires. O Mistério do Bem e do Mal. 2ª edição.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

IDEAL ESPÍRITA

Fazer de cada mulher uma sacerdotisa, de cada lar um templo, de cada coração um altar em que arda sempre impetuoso o desejo de servir com abnegação e amor a todas as criaturas de Deus, sejam elas más ou boas, tal é a missão do Espiritismo para edificar o Reino de Deus sobre a Terra.

Tarefa fundamentalmente educativa que deve ser imposta em toda parte; na oficina, na escola, na repartição, na administração, na política, no lar; mas sem o esforço combativo que desagrega os homens e forma os partidos, igrejas, seitas, classes, nações, em ações e reações eternas que geram ódios e perpetuam o mal, as rivalidades e represálias de grupos humanos, contra outros grupos humanos.

Se os espiritistas tivessem a desventura de se organizarem em uma grande igreja, provocariam as reações e represálias que perpetuariam as outras igrejas a eles opostas, numa luta contínua e apaixonada como têm vivido as diversas igrejas do passado. Pretendessem organizar-se em partido político para realizar suas nobres aspirações, e não seriam compreendidos; teriam sempre que fechar suas próprias fronteiras contra os ataques de outros partidos; já não poderiam agir na sociedade, mas somente em suas sedes e mesmo aí sob as limitações da perseguição externa e talvez da perfídia interna de adversários mascarados de espíritas. Teriam todas as desvantagens de uma seita, contra a qual todas as outras se acham fechadas.

Sempre que se pensa em organizar o Espiritismo, devem-se levar em conta as dificuldades que outras organizações; com seu espírito combativo, oporiam à nossa tarefa, quando a nossa organização, suficientemente forte, lhes parecesse uma ameaça.

         Nossa força está em nossa aparente fraqueza. Somos milhares de pequenos núcleos espalhados por toda parte, sem uma autoridade central que os reúna e oriente no plano humano da vida. Mesmo as sociedades adesas ou coligadas à Federação ou à Liga, são livres, não têm que prestar contas ou obedecer a autoridades centrais. A adesão é apenas a princípios gerais da doutrina, à aceitação das obras de Allan Kardec, com plena liberdade de interpretação, sem um sínodo ou outro corpo de intérpretes a ser obedecido. A qualquer momento a sociedade adesa pode, por sua livre vontade, desistir da adesão e seguir outros rumos, se assim lhe aprouver e voltar aos mesmos princípios e solicitar de novo a adesão, quando quiser.

Igualmente os indivíduos conservam absoluta liberdade de ação ou inação. Podem trabalhar quando e como e onde quiserem, em associação ou insuladamente, ou cessarem suas atividades quando isso lhes agradar, sem que alguma autoridade exista que lhes possa impor alguma limitação ou privá-los de algum direito. Essa liberdade dos indivíduos e de seus grupos é característica do Espiritismo e dá-lhe uma força diferente, mais espiritual e menos humana. Do ponto de vista humano, isso é fraqueza e desorganização; mas do ponto de vista espiritual é fôrça.

Nossos pregadores independem de "ordens", diplomas, uniformes, ou qualquer outra autorização. Podem exercer seu sacerdócio quando e onde quiserem; diante de um só ouvinte ou de grandes assembleias; numa missiva pessoal, num artigo de jornal, num livro, ao microfone ou por outra qualquer forma.

Quem assiste a um fenômeno espírita e o relata aos seus amigos, já está fazendo a pregação. Quem lê um romance espírita e o conta a um amigo, está praticando uma doutrinação. Assim, por toda parte, desde- as rodas mais ilustres até os meios mais obscuros, está-se fazendo a pregação do Espiritismo, interessando alguém para que o estude. Tal multíplicídade de pregadores tem a imensa vantagem de não encontrar fronteiras de seita; não ficar limitada aos templos, sinagogas, mesquitas ou sedes de grupos espíritas. Tem a vantagem, ainda maior, de não ser seita e, por isso mesmo, influenciar indistintamente qualquer membro da sociedade humana.

O ideal espírita é universal, deve influenciar todos os indivíduos, toda a Humanidade, e a maior barreira à realização desse ideal seria fecharmo-nos em uma seita com nossos livros sagrados, .nosso profeta único, nossos pregadores autorizados e uniformizados. Contra esse perigo, por mercê de Deus, contamos com a liberdade dos Espíritos, que não levam em conta nossas divisões e limitações, nem as nossas convicções sectárias; inspiram e guiam até os mais descrentes, desde que encontrem neles aptidão para determinado trabalho que se tenha de realizar no mundo.

Pela orientação que os Grandes Espíritos vão dando à mediunidade, vemos que o romance educativo, em forma de livro, de filme cinematográfico, de novela radiofônica, tem grande missão a cumprir na preparação do futuro; principalmente porque o romance fala mais diretamente ao coração da mulher e pode exercer a máxima influência na formação de nova mentalidade e novos sentimentos. O mundo feliz do futuro terá que ser obra principalmente do coração feminino, das mães, como sacerdotisas de seus lares.

Em vez de formar uma Igreja "triunfante" contra as outras, temos que fazer uma ideia triunfante nos corações, sem nos importarmos com os rótulos. Em lugar de um partido vitorioso, temos que vencer em todos os partidos, em todas as escolas e igrejas.

Como trabalhar para esse ideal?

Pelo livro, pelo jornal, pelo rádio, pelo cinema, e, acima de tudo, pelo exemplo.

Em lugar de uma organização político-religiosa à imagem e semelhança das que já existem, fundemos novas editoras, novas estações de rádio, grupos de propagandistas, asilos, abrigos, escolas, ou ajudemos aos que já existem.

Traduzamos todos os bons livros que existem em outras línguas para a nossa e os nossos para outras línguas. Publiquemos toda essa imensa literatura em Esperanto e espalhemo-la pelo mundo inteiro.

Há um trabalho imenso esperando por nós. Deixemos a outros a triste tarefa de demolir ou discutir questiúnculas teológicas. Temos muito que construir. A Humanidade sofredora e descrente merece todos os nossos esforços, toda a nossa dedicação. Não nos percamos nas fátuas discussões acadêmicas, nas polêmicas estéreis, nas lutas negativas; tentemos construir algo de positivo nos corações e nas inteligências. A nossa oportunidade é única: a Humanidade está saindo andrajosa e ensanguentada de uma de suas maiores experiências combativas, de uma de suas manifestações de força organizada. Bastam essas experiências!          '

Nossa obra é diferente; não nos deixemos tragar pelas tradições do passado, porque o passado já nos deu o que podia: lutas e ódios; ódios e novas lutas; divisões e perseguições, perseguições e divisões; milênios perdidos em discussões teológicas, discussões teológicas que se renovam em outros milênios!

Repitamos que o ideal da Terceira Revelação não é formar uma grande Igreja, mas, ao contrário disso, tornar desnecessárias as grandes Igrejas e erguer em cada coração um altar, em que arda sempre a pira sagrada do amor fraterno, destruindo o egoísmo, o orgulho, a vaidade, as rivalidades; os preconceitos.



Cristiano Agarido

(Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Junho 1945

sexta-feira, 22 de junho de 2012

OS TALISMÃS - MEDALHA CABALÍSTICA


O Sr. M... havia comprado em segunda mão uma medalha que lhe pareceu notável por sua singularidade. Era do tamanho de um escudo de seis libras; tinha o aspecto da prata, embora um pouco acinzentada. Sobre ambas as faces estão gravadas, em baixo-relevo, uma porção de sinais, entre os quais se nota planetas, círculos entrelaçados, um triângulo, palavras ininteligíveis e iniciais em caracteres vulgares; depois, outros em caracteres bizarros, lembrando o árabe, tudo disposto de modo cabalístico, conforme o gênero utilizado pelos mágicos.

Tendo o Sr. M... interrogado a senhorita J..., médium sonâmbula, a respeito dessa medalha, foi-lhe respondido que era composta de sete metais, havia pertencido a Cazotte e tinha o poder especial de atrair os Espíritos e facilitar as evocações. O Sr. De Caudemberg, autor de uma série de comunicações que, como médium, dizia ter recebido da Virgem Maria, disse-lhe que era uma coisa maléfica, destinada a atrair os demônios. A senhorita Guldenstubé, médium, irmã do barão de Guldenstubé, autor de uma obra sobre pneumatografia, ou escrita direta, garantiu que a medalha possuía uma virtude magnética e poderia provocar o sonambulismo.

Pouco satisfeito com essas respostas contraditórias, o Sr. M... apresentou-nos a medalha, pedindo nossa opinião pessoal a respeito e, ao mesmo tempo, solicitando interrogássemos um Espírito superior a propósito de seu real valor, do ponto de vista da influência que pudesse ter. Eis a nossa resposta:

Os Espíritos são atraídos ou repelidos pelo pensamento, e não pelos objetos materiais, que nenhum poder exercem sobre eles. EM TODOS OS TEMPOS OS ESPÍRITOS SUPERIORES TEM CONDENADO O EMPREGO DE SINAIS E DE FORMAS CABALÍSTICAS, DE MODO QUE TODO ESPÍRITO QUE LHES ATRIBUIR UMA VIRTUDE QUALQUER, OU QUE PRETENDER OFERECER TALISMÃS COMO OBJETO DE MAGIA, POR ISSO MESMO REVELARÁ A SUA INFERIORIDADE, QUER QUANDO AGE DE BOA-FÉ E POR IGNORÂNCIA, EM CONSEQUÊNCIA DE ANTIGOS PRECONCEITOS TERRESTES DE QUE AINDA SEACHA IMBUÍDO, QUER QUANDO, COMO ESPÍRITO ZOMBETEIRO, SE DIVERTE CONSCIENTEMENTE COM A CREDULIDADE ALHEIA. Quando não traduzem pura fantasia, os sinais cabalísticos são símbolos que lembram crenças supersticiosas na virtude de certas coisas, como os números, os planetas e sua concordância com os metais, crenças que foram geradas nos tempos da ignorância e que repousam sobre erros manifestos, aos quais a Ciência fez justiça, ao revelar o que existe sobre os pretensos sete planetas, os sete metais, etc. A forma mística e ininteligível desses emblemas tinha por objetivo a sua imposição ao vulgo, sempre inclinado a considerar maravilhoso tudo aquilo que é incapaz de compreender. Quem quer que tenha estudado racionalmente a natureza dos Espíritos não poderá admitir que, sobre eles, se exerça a influência de formas convencionais, nem de substâncias misturadas em certas proporções; seria renovar as práticas do caldeirão das feiticeiras, dos gatos negros, das galinhas pretas e de outros sortilégios. Não podemos dizer a mesma coisa de um objeto magnetizado que, como se sabe, tem o poder de provocar o sonambulismo ou certos fenômenos nervosos sobre o organismo.

Nesse caso, porém, a virtude do objeto reside unicamente no fluido de que se acha momentaneamente impregnado e que assim se transmite, por via mediata, e não em sua forma, em sua cor e nem, sobretudo, nos sinais de que possa estar sobrecarregado.

Um Espírito pode dizer: “Traçai tal sinal e, à vista dele, reconhecerei que me chamais, e virei”; nesse caso, todavia, o sinal traçado é apenas a expressão do pensamento; é uma evocação traduzida de modo material. Ora, os Espíritos, seja qual for a sua natureza, não necessitam de semelhantes artifícios para se comunicarem; os Espíritos superiores jamais os empregam; os inferiores podem fazê-lo visando fascinar a imaginação das pessoas crédulas que querem manter sob dependência. Regra geral: para os Espíritos superiores a forma nada é; o pensamento é tudo. Todo Espírito que liga mais importância à forma do que ao fundo, é inferior e não merece nenhuma confiança, mesmo quando, vez por outra, diga algumas coisas boas, porquanto essas boas coisas freqüentemente são um meio de sedução.

Tal era, de maneira geral, nosso pensamento a respeito dos talismãs, como meio de entrar em relação com os Espíritos.

Evidentemente que se aplica também àqueles que a superstição emprega como preservativos de moléstias ou acidentes.

Entretanto, para edificação do proprietário da medalha, e para um melhor aprofundamento da questão, na sessão de 17 de julho de 1858 pedimos a São Luís, que conosco se comunica de bom grado sempre que se trata de nossa instrução, que nos desse sua opinião a respeito. Interrogado sobre o valor da medalha, eis qual foi sua resposta:

“Fazeis bem em não admitir que objetos materiais possam exercer qualquer influência sobre as manifestações, quer para as provocar, quer para as impedir. Temos dito com bastante freqüência que as manifestações são espontâneas e que, além disso, jamais nos recusamos a atender ao vosso apelo. Por que pensais que sejamos obrigados a obedecer a uma coisa fabricada pelos seres humanos?

P. – Com que finalidade foi feita essa medalha?

Resp. – Foi fabricada com o objetivo de chamar a atenção das pessoas que nela gostariam de crer; porém, apenas por magnetizadores poderá ter sido feita, com a intenção de magnetizar e adormecer um sensitivo. Os signos nada mais são que fantasia.

P. – Dizem que pertenceu a Cazotte; poderíamos evoca-lo, a fim de obtermos alguns ensinamentos a esse respeito?

Resp. – “Não é necessário; ocupai-vos preferentemente de coisas mais sérias.”.


REVISTAESPÍRITA – SETEMBRO DE 1858

quinta-feira, 21 de junho de 2012

DEVE-SE PUBLICAR TUDO QUANTO DIZEM OS ESPÍRITOS?


Esta questão nos foi dirigida por um de nossos correspondentes e a ela respondemos por meio de outra pergunta:

Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?

Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por mais superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos os que deixaram na Terra o envoltório visível. Entretanto, pelo fato de se haverem despojado do homem carnal, nem por isso os Espíritos se revestiram da túnica dos anjos. Encontramo-los de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade; eis o que não devemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, estouvados e zombeteiros; pseudo-sábios, vãos e orgulhosos, de um saber incompleto; hipócritas, malvados e, o que nos pareceria inexplicável, se de algum modo não conhecêssemos a fisiologia desse mundo, existem os sensuais, os ignóbeis e os devassos, que se arrastam na lama. Ao lado disto, tal como ocorre na Terra, temos seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, de sublimes virtudes; como, porém, nosso mundo não se encontra nem na primeira, nem na última posição, embora mais vizinho da última que da primeira, resulta que o mundo dos Espíritos compreende seres mais avançados intelectual e moralmente que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que ainda estão abaixo dos homens mais inferiores.

Desde que esses seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens, de exprimir os pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser o reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios. Serão levianas, triviais, grosseiras, mesmo obscenas, sábias, sensatas e sublimes, conforme seu caráter e sua elevação. Revelam-se por sua própria linguagem; daí a necessidade de não se aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto, e submetê-lo a um controle severo.

Com as comunicações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos homens, poderíamos fazer uma coletânea muito pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é a prova disto, e cuja leitura, podemos dizer, uma mãe não recomendaria à filha. Eis a razão por que não a recomendamos aos nossos leitores. Há pessoas que acham isso engraçado e divertido. Que se deliciem na intimidade, mas que o guardem para si mesmas. O que é ainda menos concebível é se vangloriarem de obter comunicações indecorosas; é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas. Sem dúvida isto nada prejulga em relação à sua moralidade atual, porquanto encontramos criaturas atormentadas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se pode prestar o seu caráter.

Entretanto, este efeito deve ter uma causa, como todos os efeitos; se não a encontramos na existência presente, devemos buscá-la numa vida anterior. Se não estiver em nós, estará fora de nós, mas sempre nos achamos nessa situação por algum motivo, ainda que seja pela fraqueza de caráter. Conhecida a causa, depende de nós fazê-la cessar.

Ao lado dessas comunicações francamente más, e que  chocam qualquer ouvido delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Haverá inconvenientes em publicá-las? Se forem dadas pelo que valem, serão apenas impróprias; se o forem como estudo do gênero, com as devidas precauções, os comentários e os corretivos necessários, poderão mesmo ser instrutivas, naquilo que contribuírem para tornar conhecido o mundo espiritual em todos os seus aspectos. Com prudência e habilidade tudo pode ser dito; o mal é dar como sérias coisas que chocam o bom-senso, a razão e as conveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa. Em primeiro lugar, essas publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de aprofundá-las nem de discernir o verdadeiro do falso, especialmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não perdem tempo em tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita; porque, insistimos, o mal está em considerar como sérias coisas que constituem notórios absurdos. Alguns mesmos podem ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, e às quais atribuímos uma linguagem indigna delas.

Aqueles que estudaram a fundo a ciência espírita sabem como se portar a esse respeito. Sabem que os Espíritos galhofeiros não têm o menor escrúpulo de se adornarem de nomes respeitáveis; mas sabem também que esses Espíritos não abusam senão daqueles que gostam de se deixar abusar, e que não sabem ou não querem desmascarar as suas astúcias pelos meios de controle que conhecemos. O público, que ignora isso, vê apenas um absurdo oferecido seriamente à sua admiração, o que faz com que diga: Se todos os espíritas são assim, merecem o epíteto com que foram agraciados. Sem sombra de dúvida, esse julgamento não pode ser levado em consideração; vós os acusais com justa razão de leviandade. Dizei a eles: Estudai o assunto e não examineis apenas uma face da moeda. Entretanto, há tantas pessoas que julgam a priori, sem se darem ao trabalho de virar a folha, sobretudo quando falta boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto possa dar motivos a decisões precipitadas, porquanto, se à má vontade vier juntar-se a malevolência, o que é muito comum, ficarão encantadas de encontrar o que criticar.

Mais tarde, quando o Espiritismo estiver mais vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas essas publicações não terão maior influência do que hoje teria um livro que encerasse heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspeção, visto haver comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em intensidade superior aos ataques grosseiros e às injúrias de certos adversários; se algumas fossem feitas com tal objetivo, não alcançariam melhor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundando suficientemente, dando lugar, desse modo, a uma crítica fundamentada. Queixam-se do julgamento temerário de seus antagonistas, sem se darem conta de que muitas vezes são eles mesmos que exibem uma falha na couraça. Aliás, malgrado todas as precauções, seria presunção julgarem-se ao abrigo de toda crítica: primeiro, porque é impossível contentar a todo o mundo; em segundo lugar, porque há pessoas que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por seu estado, outros por seu caráter. Riem muito da religião, de sorte que não é de admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se pelo menos suas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação. Infelizmente, em geral não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem pela urbanidade e muito menos pela lógica. Façamos, então, o que de melhor estiver ao nosso alcance. Pondo de nosso lado a razão e as conveniências, poremos de lado também os trocistas.

Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos. Há, porém, uma não menos importante, que diz respeito à própria natureza das comunicações espíritas, e que não devemos omitir: Os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. As comunicações grosseiras e inconvenientes, ou simplesmente falsas, absurdas e ridículas, não podem emanar senão de Espíritos inferiores: o simples bom-senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que são ouvidos complacentemente: ligam-se àqueles que admiram as suas tolices e, freqüentemente, se apoderam deles e os dominam a ponto de os fascinar e subjugar. A importância que, pela publicidade, é concedida às suas comunicações, os atrai, excita e encoraja. O único e verdadeiro meio de os afastar é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo que não for racional, tudo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de cujo nome ele se reveste. Quando, então, vê que perde seu tempo, afasta-se.

Acreditamos ter respondido suficientemente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar sem exame, ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Tal é, pelo menos, a nossa opinião pessoal, que submetemos à apreciação daqueles que, estando desinteressados pela questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de externar a nossa maneira de pensar sobre a ciência que constitui o objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, sem pretender impor nossas idéias a quem quer que seja, nem apresentá-las como leis. Os que partilham a nossa maneira de ver é porque crêem, como nós, estar com a verdade. O futuro mostrará quem está errado ou quem tem razão.



Allan Kardec

Revista Espírita Novembro 1859

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ADVERSIDADES


São muitos os inimigos e adversários que temos de enfrentar em nossas vidas. Tanto no ser eterno quanto no corpo denso, arrostamos inimigos que se instalam em forma de enfermidades físicas e morais. Aquelas acometem o corpo somático; estas infestam a alma imortal.

As primeiras decorrem de causas diversificadas tais como a degeneração dos próprios órgãos e tecidos pela ação do tempo; o mal uso a que submetemos nosso corpo, sujeitando-o a vícios e abusos variados como o do fumo, do álcool, o dos entorpecentes, o dos desregramentos sexuais, a demasiada alimentação e o insuficiente repouso, a inadequada atividade ou a excessiva inação, além de muitos outros hábitos perniciosos.

Dentre os vícios que mais danos acarretam destacam-se o tabagismo, o alcoolismo e o consumo de várias drogas.

A submissão ao fumo leva a pessoa a expor a função pulmonar a risco muitas vezes fatal como o do enfisema, que além de reduzir a capacidade respiratória torna-a penosa e dolorosa, acarretando conseqüências danosas a outros órgãos com sacrifício do metabolismo humano. Por sua vez, a viciação em bebidas alcoólicas trará, forçosamente, o entorpecimento do fígado, facilitando o advento da cirrose e várias outras moléstias, afetando, inclusive, o sistema nervoso. Conduz, pois, inexoravelmente, a criatura à degradação.

Quanto às drogas, ninguém mais pode ter dúvidas da degeneração que impõem ao indivíduo, tanto ao que a elas está subjugado quanto àquele que as mercadeja. São as criaturas incursas nas penalidades decorrentes das graves violações das leis naturais e humanas.

Sabemos que na Terra as doenças são numerosas e têm sido preocupação constante do homem. A Ciência mostra que se não fossem as defesas naturais do corpo humano, as descobertas dos microorganismos com o advento do microscópio, as vacinas, as assepsias já alcançadas e outras conquistas, o panorama das enfermidades seria ainda mais apavorante.

Dentre aquelas defesas mencionadas, os pesquisadores apontam o envolvimento do corpo humano pela pele, derma e epiderme, como uma barreira à penetração de microorganismos e até com capacidade para exterminar muitos que ali se depositam. As mucosas nasal, pulmonar, intestinal, etc. são outros tantos obstáculos de que a Natureza dispõe para defender o organismo humano contra a incursão externa perigosa e indesejável. Mas, internamente, dispõe o corpo humano de organização a serviço de sua defesa. São mecanismos de autodefesa automaticamente acionados e que entram imediatamente em atividade sempre que ocorre uma lesão, um risco, uma invasão microbiana, etc.

Os medicamentos, as diversas terapias, os hábitos saudáveis e higiênicos e outros fatores são outros tantos recursos de defesa do organismo humano. Mas, além desses meios que fazem parte da matéria densa, há outros pouco ou menos conhecidos, mas também relacionados com a nossa integridade física e que constituem seus poderosos defensores os quais, entretanto, não estão catalogados pela ciência do mundo. No futuro, quando a luz se fizer nos horizontes dos observadores atentos, eles irão constatar a efetiva existência de outras proteções. Exemplo típico é o da aura humana. A vibração das nossas células faz com que emitam radiações que formam um halo energético em torno de nós semelhante a uma túnica eletromagnética. É o que constitui a aura e dentre as suas funções podemos citar que representa defesa do corpo contra várias espécies de microorganismos. Saliente-se, contudo, que ainda não foi devidamente considerada pela ciência oficial.

Mas não é só. As energias cósmicas, a luz solar, os fluidos ainda não pesquisados constituem poderosos elementos a serviço da saúde humana, atuantes permanentemente, a despeito e à revelia da nossa ignorância e da insensibilidade em face da sua ação e eficácia.

Em síntese, estão mencionados alguns dos inimigos do corpo humano e dos modos de defendê-lo. Assim, esses infortúnios fundamentam a nossa constante preocupação em virtude da perspectiva que representam de dores e sofrimentos ou até a da própria morte.

Mas há outros males que se instalam em nosso interior e parecem ter vida simbiótica em nossa alma, em processos doentios demorados, de difícil erradicação. O egoísmo, o orgulho, a vaidade, o desânimo, a inveja, o ciúme, o ódio e tantos outros que infestam a alma tornando-a enfermiça e terminam por impor ao próprio corpo físico conseqüências mórbidas dolorosas.

Todas as desditas humanas decorrem da inobservância e da infringência das leis divinas, resultam das nossas imperfeições, as quais ditam nossos procedimentos malévolos com os semelhantes, advindo daí os efeitos desastrosos a despontarem em nosso caminho.

O renascimento em mundos como a Terra já revela a presença de imperfeições e os quadros dolorosos de nossas vidas também constituem, muitas vezes, seguros indicadores de que, de alguma maneira, deixamos de observar a obrigação de fazer o bem ao semelhante ou, mais grave ainda, demonstram outras vezes claramente, que nossas feridas são resultantes de outras tantas chagas abertas, outrora, por nós em irmãos do caminho.

Há nas leis naturais escala verdadeira de valores, a qual, quando devidamente observada e adotada, impulsiona o progresso da criatura, aperfeiçoando-lhe a alma imortal.

Sabemos que a situação social das pessoas é tão variada como o são suas atividades. Seu comportamento também é diversificado de conformidade com seu adiantamento moral.

Portanto, os valores são escalonados sob os aspectos moral, econômico e intelectual. Perante as leis naturais nada impede que essas três condições coexistam na criatura, em elevado grau, ou cada qual isoladamente. Todavia, somente o aperfeiçoamento moral caracteriza o verdadeiro progresso perante as normas divinas.

Muitas pessoas que ocupam posições sociais elevadas e até mesmo no exercício de funções e atividades religiosas relevantes, diante das disposições divinas, são havidas como deficientes em termos de bondade, compreensão, fraternidade, em razão de seus comportamentos no trato com os semelhantes. Não é raro observar-se a desatenção com que tratam as pessoas. Entendem que as altas funções que exercem no seio da sociedade são mais importantes do que as próprias criaturas. Sempre ocupadas e apressadas não podem dispensar um instante sequer a um irmão, a um amigo do caminho. Alegam que não dispõem de tempo. Seus próprios filhos são tratados como se fossem estranhos. Não têm tempo para amá-los, para educá-los na faculdade de amar. Esquecem-se tais criaturas que o tempo é algoz dos que erram e abençoado bálsamo dos injustiçados. Que o importante é a pessoa é o próximo, o nosso semelhante. O que conta no fim da trilha que leva ao túmulo é o amor que se dedica e este é a chave que abre a porta para a senda de luz e felicidade depois do sepulcro.

O menosprezo dessa verdade enseja muitas adversidades no futuro.

Portanto, não basta abstermo-nos de praticar o mal. Os princípios universais que regulam a evolução impõem-nos o dever de promover sempre o bem do próximo.

Todos nós na Terra enfrentamos dificuldades inumeráveis, as quais fazem parte do processo evolutivo. Mas as dores e vicissitudes, antes de tudo, devem sempre servir de alerta de que jamais devemos impô-las aos semelhantes.

Permanentemente temos de lembrar-nos de que vivemos cercados pela Infinita Misericórdia a começar pelo dom da vida, pelas possibilidades de amar e de ser amados, de servir e pagar dívidas, de trabalhar e evoluir, de recolher a cada manhã como raios de luz a renascente esperança de felicidade e a certeza de que a morte não existe.



Reformador Ago.97

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A VOCÊ QUE ESTA CHEGANDO

Hoje a palavra é para você, companheiro de muitas procuras, que chega à Casa Espírita em busca do bálsamo que alivie uma grande dor, da palavra que ajude a superar um momento de crise ou que preencha algum “não sei quê?” esquisito que lhe deixa enorme vazio cá dentro do peito.

Talvez esta seja a derradeira porta, após tantas tentativas de encontrar o equilíbrio, a paz, enfim, o sentido da vida. E o seu coração se divide agora entre esperanças e temores. Afinal, foram tantas as frustrações... Mas, como diz a canção da Zizi Possi...

“Vá, e entre por aquela porta ali, não tem caminho fácil não, é só dar um tempo que o amor chega até você”...

Pois é, amigo, grupos espíritas não são igrejas. São espaços fraternos de vivência do Evangelho de Jesus, à luz da Doutrina Espírita, uma espécie de oficinas do bem, onde se busca, em conjunto, aprender e exercitar esse tão decantado amor ao próximo.

Então, por favor, não nos idealize. Não espere uma bondade e elevação que ainda não possuímos.

O espírita professa uma fé racional que, facilitando a compreensão dos porquês da existência, aumenta também a responsabilidade de uma mudança de atitude para melhor diante dos desafios cotidianos da vida.

Porém, não nos enganamos, nem queremos lhe enganar a respeito de quem somos. Somos exatamente como você. Sentimos as mesmas dificuldades afetivas, emocionais, sexuais, espirituais e tantas outras, inerentes à nossa condição humana de seres em evolução. Estamos todos no mesmo barco, amigo, mas remar juntos para chegarmos em segurança à outra margem da vida – que é o nosso destino e lugar de origem – certamente fará toda a diferença. E isto nós queremos e podemos fazer.

Não temos rituais ou chefes religiosos. Trabalhamos em regime de cooperação fraterna e voluntária, conforme as aptidões e disponibilidades de cada um, em benefício de todos os que aqui chegam. Por isto, querido amigo, ao entrar por aquela porta, não espere encontrar sacerdotes investidos de superioridade ou poder.

Não espere encontrar um grupo seleto de iniciados em “mistérios do Além” ou indivíduos infalíveis que lhe digam, a todo tempo, o que fazer, pois encontrará apenas pessoas comuns, com muitas certezas e convicções sim, mas também com crises e inseguranças, tais como as suas.

Aqui você vai encontrar aprendizes na arte de servir. Gente que se sente feliz em contribuir para a felicidade alheia, pessoas sempre prontas a acolher, ouvir e amparar. Não suponha, porém, que estejamos isentos de provas e problemas. Assim como você, lutamos e sofremos. Apenas optamos pela ação no bem como forma de trabalhar em nós mesmos o próprio aperfeiçoamento, contribuindo para a construção de uma sociedade melhor, ao mesmo tempo em que buscamos, no estudo e no trabalho, as respostas e a coragem necessárias para enfrentar as nossas próprias batalhas na arena da vida.

Entre nós, encontrará também companheiros esforçados na tarefa de consolar e esclarecer.

Não nos tenha, porém, como sábios inquestionáveis ou seres santificados.

Assim como você, não vivemos alheios às dificuldades do mundo. Creia, amigo, o nosso maior desafio é exemplificar, na prática, as verdades espirituais que conhecemos e pregamos. No dia a dia, sobretudo lá fora, esforçamo-nos por ser pessoas mais pacificadoras, generosas, fraternais, e, sinceramente, nem sempre o conseguimos...

Mas, se é grande ainda a nossa imperfeição, maior é a alegria de vê-lo chegar. E assim como Pedro, o apóstolo rude e sincero de Jesus, apesar do reconhecimento da nossa pequenez humana e espiritual, é muito bom poder aconchegá-lo com carinho e lhe dizer do fundo do coração:

“Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho vos dou”. (Atos, 3:6.)

Caminhemos juntos!



Reformador Dez.2009

quarta-feira, 30 de maio de 2012

MINHA HOMENAGEM AOS 581 ANOS DA DESENCARNAÇÃO DE JOANA D'ARC ( 30.05.1431)


 O motivo que nos leva a escrever sobre a Donzela de Orleans, não é o de pormenorizar a sua vida, cheia de heroísmo e estoicidade, porque se acha descrita de modo magnífico na obra monumental de Léon Denis, que se intitula "Joana D'Arc Médium".  Essa obra é toda apoiada em documentos insofismáveis, da qual respigamos alguns dados para a elaboração desta despretensiosa monografia.
Foi com vistas ao período agudo por que passa a humanidade, pejada de sofrimentos e apreensões, que achamos de bom alvitre lembrar, aqui, a figura da grande guerreira que foi Joana D'Arc.
Os seus feitos nobilíssimos na expulsão dos ingleses da França, no século XV, foram decisivos para a independência e liberdade desta grande e portentosa nação, graças ao feliz desempenho da sua mediunidade.
O que torna mais admirável esta jovem extraordinária é a evidência das faculdades mediúnicas de que era possuidora, quais sejam: as da visão, audição e premonição, às quais obedecia sem discrepância.
Sem tais faculdades, de per si ela nada teria realizado, tendo-se em vista a sua pouca idade e a sua nenhuma cultura.
Joana D'Arc nasceu em Domremy (França) em 1412. Era filha de pobres lavradores. Quando não fiava a lã junto de sua mãe, apascentava o rebanho às margens do Vale do Mosa, tendo, muitas vezes, ladeado seu pai no manejo da charrua.
Joana era morena, alta, forte e bela; a sua voz era suave, a expressão graciosa, o todo modesto.
Em uma moça como quase todas de sua idade, sonhadora. Comprazia-se em contemplar o céu, à noite, quando pontilhado de estrelas; apreciava vaguear pelas frescas campinas, pelas manhãs e, à tarde, sentar-se sob o carvalho anoso, fronteiriço à sua casa, onde ouvia, embevecida, o tanger dos sinos da igreja de sua aldeia.
Joana frequentava assiduamente essa igreja, onde orava com devoção.
Próximo à sua casa havia um jardim, bem cuidado, onde igualmente costumava orar.
A sua primeira visão, segundo Léon Denis, teve-a ela nesse local, quando se achava em prece.
Nessa visão, aparece-lhe um espírito de grande formosura, cujo esplendor deslumbra-a. Em seguida, é S. Miguel que lhe surge com urna corte de espíritos puros, que lhe fala da situação angustiosa de seu país e lhe revela a missão que lhe estava destinada de salvá-la.
A princípio, Joana reluta, confessando sua incapacidade para tão alto desígnio, sendo encorajada com a promessa de ajuda dos bons espíritos que a guiariam nesse arrojado empreendimento.
As entidades que mais frequentemente se comunicavam com ela, eram os espíritos boníssimos de Santa Catarina, Santa Margarida e S. Miguel, assim designados por ela, em virtude dos ensinamentos católicos, adquiridos naquela época em que o Catolicismo Romano imperava quase absoluto.
É de se notar que Joana jamais saiu de sua aldeia. Adorava seus pais, aos quais ajudava dedicadamente nos seus misteres e nunca ia deitar-se sem antes depositar-lhes na fronte seu ósculo filial.

JOANA ACEITA A MISSÃO
Um dia, na sua visão, reaparece-lhe S. Miguel que lhe diz: "Filha de Deus, tu conduzirás o Delfim a Reims, a fim de que receba aí sua digna sagração". A essas palavras Joana junta-lhes ação. Assim, antes do romper da aurora, em plena estação hibernal, Joana se levanta da cama e, pé ante pé, sem fazer ruído para não trair o sono de seus pais que a impediriam, por certo, de realizar seu intento divino, faz uma mala de roupas, salta a janela de seu quarto e vai para onde mandam suas vozes.
Quando sua fuga se deu, para cumprimento dessa missão, contava Joana a idade de 17 anos.
Só, ignorante, contando unicamente com o auxílio de seus espíritos, nos quais depositava toda a fé, ela deixa a aldeia que muito amava e onde nascera, e que não veria mais. Deixa ainda, o seu rebanho do qual nunca se tinha apartado e, conforme suas vozes, segue em direção a Paris, passando, antes, por Vaoucoleres, onde põe seu tio ao par do que lhe cumpria fazer por determinação do Alto.
Até então, sua vida havia transcorrido entre o trabalho, que muito amava, e o repouso.

JOANA É CONDUZIDA AO SUPLICIO
O dia 30 de Maio de 1431 assinala o término da sua gloriosa missão na Terra. Nesse dia, os sinos bimbalham o dobre fúnebre desde á 8 horas da manhã. É que anunciam a morte de uma inocente criatura, cujo único crime fora ter amado e servido fielmente à sua Pátria.
Diante de tanta injustiça, de tantos sofrimentos, que iriam, dentro em breve, culminar numa fogueira, Joana chora amargamente. Preferiria, ela própria o diz ser decapitada sete vezes, a morrer queimada.
Os monstros conduzem-na numa carreta. Oitocentos soldados ingleses escoltam-na até ao local do suplício. Grande multidão se comprime na praça onde Joana deveria receber o gênero de morte destinado aos piores assassinos.
Na Praça Vieux-Marché, em Rouen, são erguidos três palanques, para serem ocupados pelos altos dignitários. Entre eles achavam-se presentes o Cardeal de Wenchester, o Bispo de Beauvais e o de Bolonha, e todos os juízes e capitães ingleses.
Entre os palanques ergue-se um monte de lenha, de grande altura, dominando toda a praça. A intenção dos verdugos era aumentar o sofrimento de Joana, espetacularizando-Ihe a morte, a fim de que ela renegasse, pela dor, à sacrossanta missão e às suas vozes.
Nessa ocasião, é lido um libelo acusatório, composto de 70 artigos, no qual transparece todo o ódio, toda a calúnia dos seus inimigos.
Joana ora com fervor, em voz alta, e pede, nessa prece, Q Deus, que lhe dê a coragem precisa para suportar a prova final, sem queixumes, sem tergiversar.
Em seguida, implora o perdão divino aos seus algozes, tal como fizera Jesus quando pregado ao madeiro.
Em dado momento, suas palavras comovem aquela gente, em número superior a 10 mil pessoas, que soluçam ante os horrores daqueles momentos. Os próprios juízes, sentindo o remorso morder-lhes a consciência, choram diante dessa cena.
A um aceno do cardeal, Joana é amarrada ao poste fatídico, com fios de ferro.
A vítima dirige-se, então, a uma pessoa que se achava perto e pede-lhe que vá buscar uma cruz na igreja mais próxima. Ao ter o símbolo da dor entre as mãos, cobre-o de beijos e lágrimas. É que nesse momento trágico, ela queria ter diante de seus olhos a imagem do Crucificado, para inspirar-lhe a coragem de que carecia.
Naquele momento, Joana reviveu todo o seu passado de glórias, cheio de gratas recordações, que só pode acudir à mente das criaturas verdadeiramente puras, como ela, que ia, daí a instantes, sacrificar sua vida pela verdade.

QUEIMADA VIVA
Eis que o momento azado chega. Ao monte de lenha que se ergue da praça, os carrascos lançam fogo. As labaredas começam a subir atingindo a vitima. Já lambem suas carnes. O Bispo de Beanvais aproxima-se da fogueira e grita: "Joana! Abjura!" ao que lhe responde: "Bispo, morro por vossa causa, apelo de vosso julgamento para Deus!"
Quando o fogo começa a chamuscar seu corpo, Joana, estorcendo-se nos ferros onde se achava presa, grita à multidão: "Sim, minhas vozes vinham do Alto! Minhas vozes não me enganaram. Minhas revelações eram de Deus. Tudo que fiz, fi-Io por ordem de Deus!"
Seu corpo arde-se todo. Eis q:ue novo grito abafado pelo crepitar da fogueira, ecoa de dentro dela; era seu apelo ao mártir do GóIgota: "JESUS".
Seu corpo fora carbonizado nessa fogueira e reduzido a cinzas, as quais, depois foram lançadas ao Sena.
Desta forma, negaram-lhe seus inimigos uma sepultura onde pudessem seus admiradores ir pranteá-la!
Os ingleses pensavam terem vencido com a morte de Joana, Mas, enganavam-se. Carlos VII consegue reorganizar rapidamente suas tropas e ganhar as batalhas de Formigni e Castillon, findando-se, assim, a guerra com o triunfo dos franceses.
Seus inimigos mataram-na tal como queriam, isto é, lentamente, com requintes de crueldade.
 Joana morreu para os ingleses, para a Terra; porém, viveu para o céu. É a recompensa divina.

CANONIZAÇÃO DE JOANA
Alguns anos mais tarde, Joana é canonizada pela Igreja Romana, a mesma que a tinha acusado de herética. A sua santificação foi mais por conveniência política, que por outro motivo qualquer, porquanto Joana sempre inspirou à Igreja sentimento de repulsão em virtude da sua mediunidade; e por isso, era tida, pelo clero, como "feiticeira", por não querer obedecer-lhe negando a origem extraterrena da sua missão.
O processo de reabilitação de Joana, levado a efeito no século XV, marca a queda da Inquisição na França. Eis o que os franceses devem, ainda, a Joana D'Arc.
A vida de Joana D'Arc, verdadeiro martirológio, continuará sendo sempre a fonte inexaurível de supremos consolos a todos os que sofrem neste vale de dor.
Mártir da mediunidade, a sua fé em Deus, o seu amor a Jesus, cujo nome fora a sua derradeira palavra, reavivará a fé nos corações atribulados que a ela Se voltarem.
Formosa flor de Lorena! Donzela santa! Alma Lirial! Destas plagas sombrias e expiatórias, eu, humilde rabiscador destas linhas, saúdo-te ó pastora  de Domremy, heroína de Orleans, mártir de Rouen!

CONCLUSÃO
Por que, dirão, Joana teria sofrido tanto? A verdade é que, ninguém sofre se não pecou. Esta é uma das leis divinas que cabia ao Espiritismo revelar aos homens, mostrando-lhes que Deus não é um experimentador de almas, concedendo, a uns privilégios, e a outros martírios.
A reencarnação, ensinada pelo Cristo e sancionada pelo Espiritismo, veio patentear aos homens a misericórdia Divina. Assim é que se numa existência o homem vem a falir, desarmonizando-se com as leis naturais estabelecidas por Deus, outra lhe é facultada, para que ele possa resgatar (mais duramente em virtude da sua reincidência no mal) o passado delituoso, e ascender, assim, a outros mundos mais felizes, que Deus destinou a todas as suas criaturas. Deus não criou estes mundos que gravitam no espaço imensurável, inutilmente. E o Cristo dissera que "nenhuma ovelha do seu rebanho se perderá,", o que equivale dizer: não existe o tão lendário inferno com a eternidade de suas penas.
O que existe, e isto é muito justo, porque se concilia perfeitamente com a justiça de Deus, é a reparação de erros; em seguida, provação, para ficar evidenciado se o pecador incorrerá ou não no mesmo erro; após o que - redenção, uma vez triunfante da prova.

UMA REENCARNAÇÃO PASSADA DE JOANA, SEGUNDO UM ESPÍRITO.
H. de Campos, chamado com justeza o repórter do Além, lançou um pouco de luz sobre a vida da grande personagem de quem acima tratamos.
Das páginas de um de seus livros post-mortem, depreende-se que Joana fora a reencarnação do espírito de Judas Iscariotes.
Não deve causar estranheza aos espíritas, a diferença de sexos dessas duas existências, porquanto, o sexo, conforme nos ensina a Doutrina dos Espíritos, não é mais que um acidente na vida humana, necessário à execução dos desígnios divinos.
O ter sido, Joana D'Arc, a reencarnação do espírito de Judas Iscariotes, conforme revelação do espírito citado deve ser motivo de júbilo, principalmente para os espíritas, porque isso vem demonstrar que o perdão de Jesus concedido a Judas, que o traiu, não foi em vão.
Consoante a concepção católica, Judas é um espírito errante, sem probabilidades de remissão, cuja eterna existência ele arrastará penando.
Assim sendo, perguntamos, de que valeu, então, ter Jesus perdoado a Judas? Felizmente assim não é. O perdão de Jesus não foi inútil. Judas penitenciou-se, pedindo a Deus uma nova existência, cheia de renúncia e de sofrimentos dolorosos, que se epilogou numa fogueira, na pessoa de Joana D'arc.
Que o espírito de Judas Iscariotes, emancipado aos olhos de Deus pelo seu martírio de Rouen, se compadeça dessas infelizes criaturas que, desconhecedoras da lei reencarnacionista, e da misericórdia do Pai ainda queimam - "o Judas de pano" - como desagravo à sua alta traição, ocorrida no passado remoto.


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